sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

As luzes do Natal

Ana Trajano

Daqui da janela do meu quarto, no sétimo andar, olho a rua lá embaixo, e vejo como está bonita, iluminada porque é dezembro, porque é Natal! É noite de lua cheia e a rua fica ainda mais clara. O mar também. De um brilho prateado que o transforma em uma enorme folha de papel alumínio, ondulada pela brisa. Uma árvore de Natal de água e luz beijando o horizonte! Assim é o mar nessa noite de lua!

Eu olho mais uma vez para o alto e, inesperadamente, vejo uma estrela cadente. Parece despencar, com seu pálido brilho, sobre um edifício, também iluminado. Há quanto tempo não via uma! Mas é Natal! É tempo de luz, de estrelas de plástico que brilham sobre árvores artificiais, de acácias verdadeiras pesadas de lâmpadas azuis! De estrelas cadentes anunciando um tempo novo talvez, guiando-nos ao nosso próprio coração, onde num estábulo, entre bois e vacas, brilha tranqüila a luz da humanidade!

Como eu gostaria de ser nesse instante um astronauta e, lá do alto, de uma estação espacial, ver a terra aqui embaixo! Como deve está iluminada! Uma bola de luz girando no espaço, pois sei, não é apenas a minha rua, o meu bairro, que estão iluminados.!. É todo o planeta, todas as nações, todos os povos! Cristãos e não cristãos, porque é dezembro, porque é Natal, porque a mesma estrela que, com seu brilho, guiou os Reis Magos, continua guiando cada um de nós para o caminho, o entendimento daquilo que somos. É tão simples! Descubra! E você vai fazer de cada um dos seus dias um lindo Natal!

Há alegria em cada um de nós, visível, transparente, que brota do coração, também ele uma bola de luz. Uma felicidade que nasce do nosso desejo de amar, de ter paz, de ser feliz, de sermos luz, pois esse é o nosso destino! Iluminamos a casa, a árvore, a rua como resgate inconsciente daquilo que somos, daquilo que é o sol, a lua, as estrelas!... Pois somos líquidos de uma mesma fonte, células de um mesmo organismo, movidos por uma única energia, o amor!

Tudo nos lembra renovação: as luzes, a casa pintada, os móveis novos!... E assim entramos o ano novo,”renovados” no espírito natalino. Até as roupas são novas! E se ao invés de esperarmos dezembro nos renovássemos de verdade todos os dias? Enchêssemos a casa de luz, a árvore de luz, e de luz enchêssemos nosso coração? Todos plugados em uma mesma energia: o amor! O mundo iria mudar! Guerras deixariam de existir! A terra seria uma aldeia de paz! Seria como a minha casa e a tua, o meu coração e o teu, pulsando no mesmo ritmo: o ritmo do amor, que transforma, e afaga, e compreende e nos enche nas noites iluminadas de Natal!

Por que temos que esperar dezembro? Porque aqueles que não conhecem o amor, que ainda não se descobriram luz, enchem-nos de conveniências, datas pré-estabelecidas, regras de economia que só favorecem a eles próprios, a seus próprios bolsos! O décimo não pode ser pago todos os meses, pois a economia entraria em colapso; o peru não pode ser comprado todos os dias. Talvez seja essa a resposta. Mas todos nós precisamos de paz, em pelo menos um dia do mês, um mês do ano. De nos lembrarmos luz. E eles sabem disso! Eles, os vendedores de ilusões!

Não espere uma data pré-estabelecida para se renovar, comemorar o seu renascimento, se encher de luz! Faça isso todos os dias! Se você prefere dezembro é bonito também. Mas não limite o seu Natal às regras do consumismo! Não faça dele uma ilusão! Pois dezembro passará, as luzes se apagarão e você terá que esperar mais um ano por aquilo que pode fazer hoje. Sem ilusão!

Você gosta de presépio? Eu também! Eu proponho: vamos armar o presépio todos os dias em nosso coração: Jesus, Maria, José, os Reis Magos! Não esqueça os bichinhos, pois entre os bichinhos ele nasceu! Não esqueça essa lição de amor e humildade, pois você viverá melhor com ela! Tem filhos pequenos? Eu também. Chame-os para montar o presépio com você! As crianças adoram! Você vai ver como é bom sentir Jesus nascer todos os dias dentro de você!...





Neste Natal vamos pazear?


Os índices de violência no Brasil, segundo os dados divulgados pela ONU (Organização das Nações Unidas) mostram que pazear é mesmo um ilustre desconhecido entre os verbos da língua portuguesa, pelo menos no Brasil. Mas você sabe o que é pazear? Esta palavra parece-nos estranha porque não está presente, como ação, em nosso dia-a-dia. Não como deveria. Conhecemos o substantivo paz, usamos e abusamos dele nestes tempos de tanta violência, mas desconhecemos o verbo pazear. No entanto ele está lá, no Aurélio, significando: “estabelecimento da paz”,” harmonia”.

Desconhecemos o verbo, ou o usamos com tão pouca frequência, porque quando o assunto é paz boiamos na superfície, nunca vamos à profundidade da ação. Simplesmente falamos de paz, mas não pazeamos, isto é, não a praticamos, não a fazemos, não a construímos. E a paz sucumbe à nossa incoerência, do falar sem agir, da palavra sem ação. Verbo que não é conjugado, é verbo morto, desconhecido.

A paz jamais se sobreporá à violência se não for praticada. Refém dos nossos medos, da impotência que sentimos diante de tão altos índices de violência, da impunidade, da injustiça, a paz vai se deixando engaiolar no substantivo, dependendo da nossa atitude de lança-la a ação nas asas do verbo.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Antropofagia na linguagem machista

Ana Trajano




Os novos dados divulgados sobre a violência em Pernambuco nos envergonham e entristecem, não apenas porque tratam da violência contra a mulher, mas porque expõem, de forma absurda, as entranhas da sociedade machista em que vivemos. Até outubro, os dados para 2011 já haviam computado 215 assassinatos de mulheres no Estado, números que superam os de 2010.

Para aliviar o horror provocado por esses dados, e tentar reduzi-los, a companhia de águas e esgotos (Compesa) decidiu realizar campanha, juntamente com o Ministério Público de Pernambuco, divulgando nas contas de água, a partir de dezembro, informações sobre a Lei Maria da Penha e o número do telefone para denúncia.

Uma iniciativa louvável da empresa que, espera-se, surta algum efeito e não seja mais um no universo de paliativos já existentes. Paliativos, vale salientar, servem apenas como suporte para medidas mais consistentes. Para apagar esse incêndio que se alastra como pólvora é necessário muito mais que informação na conta de água.

São necessárias mudanças dos velhos para novos padrões culturais e de comportamento. O que há de específico na violência contra a mulher é que ela também tem raízes culturais. Está intrínseca até na linguagem do dia-a-dia. A antropofagia na linguagem machista, por exemplo, é fato corriqueiro entre nós e, apesar de abominável, tornou-se verbo de uso comum para definir as relações amorosas entre homem e mulher.

Os homens já não fazem amor, ou sexo, mas “comem” as mulheres. Não ouvimos mais: “fulano fez amor com fulana”, ou mesmo “fulano teve relações com fulana”. Essas são expressões em desuso, tornaram-se ridículas. O que mais ouvimos é: “fulano comeu fulana”. E esse “comeu” quase sempre soa como vitória. Não como sucesso, momento último, mágico, num processo de conquista, de sedução, mas como vitória.

Em resumo, as relações entre homens e mulheres assemelham-se as que só vemos na selva: são as mesmas entre a presa e o predador. Aliás, superam as da selva, pois presa e predador são da mesma espécie. Neste cenário antropofágico, os novos símbolos sexuais, produzidos pela mídia, têm nome de frutas, de algo para presentear o paladar; mulher moranguinho, mulher melancia, mulher pera, etc. Isto é, mulheres são comestíveis, e frágeis e gostosas e suculentas como a enorme variedade de frutas do nosso pomar tropical.

Uma boa informação nas contas de água, para começarmos a mudar esse quadro de horror, seria: “Mulheres, não permitam que seus homens lhes “comam”! Não se deixem devorar! Exijam fazer amor, ou sexo; não serem “comidas”! Não foi para isso que conquistamos o direito ao voto, que conseguimos mais espaço no mercado de trabalho, que lutamos por cidadania”.



Antropofagia ou canibalismo?




Sobre o termo “antropofagia”, utilizado no texto, o professor Edson Hely Silva, da Universidade Federal de Pernambuco, extremamente cuidadoso com a questão do preconceito contra os índios, (ele é um dos maiores pesquisadores brasileiros sobre povos índigenas, e prepara-se para seu pós-doutorado no assunto) enviou-me e-mail com algumas observações bastante pertinentes. Vou transcrever na íntegra o texto de Edson.

“Ana,

Tudo bem?

Acessei o blog (vou divulgar) e li o texto que gostei muito. Tenho algumas observações a fazer. Tratar da relação antropofagia/selva, no contexto discriminatório contra os povos índigenas, é algo complicado. Pois naturalmente as pessoas irão pensar: antropofagia=índios. O que não é de forma alguma o que diz o seu texto, nem tampouco seja essa a intenção dele!

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha (aposentada da Usp e da Uni. Chicago/EUA) publicou, anos atrás, um texto bastante instigante, discutindo os discursos de antropofagia e canibalismo, atribuídos pelos colonizadores europeus (portugueses, franceses, holandeses, alemães, etc., etc., etc.) fossem administradores coloniais, missionários, naturalistas, etc. sobre os índios no Brasil.

Em resumo, após examinar textos coloniais, a pesquisadora fez uma distinção interessante: canibal era como os colonizadores portugueses chamavam os grupos considerados hostis, que resistiam a dominação. Eles eram cães/canibais. Se alimentavam de carne humana, à semelhança de cães!

Antropófagos eram os discursos de viajantes de outras nacionalidades (que só passavam pelo Brasil, não vieram colonizar). A antropofagia era o consumo de carne humana, mas de forma ritual: para ter a força do morto, como vingança ritual. Essa visão era profundamente influenciada pelo conhecido mito do “bom selvagem”, de Rosseau.

O teólogo presbiteriano, Rubem Alves, anos atrás, fez uma reflexão (não a tenho, e não sei onde encontrá-la. Talvez na Internet) sobre o filme A Festa de Babete, onde ele relacionou, de forma poética, o ato de comer com a relação sexual.

Bom, espero que essas reflexões ajudem você a pensar o seu texto. Abraços”

Edson silva




Minha opinião



De início, obrigada a Edson pela contribuição! Eu penso o seguinte: mudam as palavras, mas a violência é a mesma, tanto em uma como na outra. Só depende de qual palavra se escolhe para usar: antropofagia ou canibalismo. Os dois substantivos expressam um único verbo e uma única ação: comer carne humana! Escolhi antropofagia porque, para mim, é a palavra que se adequa mais ao assunto, já que o ato sexual pode ser visto como um ritual, cujo verbo “comer” tem ferido sua beleza e sacralidade, assim como o sacrifício de seres humanos, e mesmo dos animais, fere a sacralidade de qualquer ritual. Há semelhanças também no que se refere á competitividade, pois, na minha opinião, é como se o homem, alimentado por seu machismo, “comesse” a mulher para disso retirar sua força, se sobrepor a ela. Quanto a reflexão do teólogo presbiteriano é preferível não comentar.



terça-feira, 20 de setembro de 2011

A VIOLÊNCIA NAS NOVELAS


 Quem assiste às novelas da Globo talvez tenha reparado que estão abusando das cenas de violência. São espancamentos, assassinatos, apedrejamentos e, até, enforcamento. Os autores, sem muito escrúpulo, lançam mão desse recurso deprimente que dá garantia de audiência. E as novelas, que consumimos como o feijão indispensável do cardápio, tem provocado indigestão, ânsia de vômito, diante de uma mídia que ao invés de usar seu poder para transformar a realidade, a piora, tornando-a mais cruel.
Banalizada, a violência nas novelas, infelizmente, não vem provocando o impacto que deveria. Não, se comparada à polêmica com os relacionamentos homossexuais. Essa é a nossa realidade, alguns podem justificar. Injustificável mesmo é esse fatalismo como se, personagens de uma estória, tivéssemos sido jogados em um enredo do qual não pudéssemos sair. Estória e história, eis a diferença. E a história nos tem mostrado que fatalismos não existem. Só são reais até prevalecer a nossa disposição de mudá-los. Um capítulo mais decente da história de nosso país poderia estar sendo escrito, caso os meios de comunicação adotassem a cultura de paz como política.
 É verdade  que ao nos depararmos com a barbárie mostrada nos noticiários chegamos a conclusão que o homem parece regredir a um estágio animalesco pior do que o encontrado nas savanas. Podemos argumentar, com razão, que os veículos de comunicação são reflexos das sociedades. Falta, entretanto, a pergunta complementar, essencial, definitiva: as sociedades, cada vez mais violentas, são reflexos de que, senão das selvas nas quais se transformaram? Ingredientes para a barbárie não lhes faltam: ganância, competividade, injustiças, preferência pelos mais fracos na hora de mostrar suas garras, praticar suas violências... Na hora, enfim, de esquecer por quem dobram os sinos...

POR QUEM OS SINOS DOBRAM


Por quem os sinos dobram, de John Donne, é, certamente, um dos mais belos poemas da história da literatura. De forte conteúdo metafísico, ele expressa a complexidade desse tecido cósmico no qual tudo e todos convergem para algo único. A diversidade é apenas o reflexo, ou forma de manifestação da unidade. O uno se espalhando no verso; o verso dentro do uno. Como síntese a realidade maior: o Universo. “Um em diversos”. (Rhoden)
“Unidade na diversidade”, não é apenas uma frase bonita, um jargão da moda, mas pura manifestação de consciência cósmica. Quantos, porém, conhecem seu significado? Quantos procuram praticá-lo? Se assim o fizessem estaríamos vivendo em um mundo melhor. Estaríamos respeitando as florestas, rios, mares, pântanos. Espécies não teriam sido extintas, e outras não estariam agora correndo esse risco. Pois quando o homem adquire tal consciência, respeita tudo que compõe o mundo no qual está inserido. Ele sabe que a essência divina da criação é a mesma em qualquer criatura. E jamais indagará por quem dobram os sinos.
   O sentimento de unidade do homem com o Universo, demonstrada por John Donne, coloca-o entre aqueles poucos seres que transcenderam o limitado mundo dos sentidos, das coisas materiais, e se aventuram ao ilimitado mundo do espírito. O poema:

Nenhum homem é uma ilha
Fechado sobre si mesmo
Todo homem é uma parte da Terra
Uma partícula do Universo
Se um torrão é arrastado pelas águas
Para o mar
A Europa fica menor
Como se de um promontório se tratasse
Da casa dos teus amigos
Ou da tua própria
A morte de qualquer homem diminui-me
Porque sou parte da humanidade
Por isso não pergunte por quem
Os sinos dobram:
Eles dobram por ti.

CRÍTICAS A LEILA LOPES NOS ENVERGONHAM


A eleição da angolana Leila Lopes como miss Universo, feriu de morte o coração de racistas dos quatro cantos do mundo. A moça foi atingida por saraivadas de preconceito racial, via Internet. Tem forma pior de violência? De “macaca” foi chamada. Só que ao compará-la a uma macaca, esquecem seus agressores que estão pisando em suas próprias origens.  Desconhecem, talvez, a Teoria da Evolução, de Darwin. Um mínimo possível de conhecimento em Antropologia é suficiente para sabermos em que continente a vida humana começou! Mas “Mama África” é renegada, desde que, nos primórdios de nossa história, nos decidimos pelas miscigenações.
 A verdade é que a hipocrisia, por mais que doa admitir, é intrínseca à natureza humana. Somos hipócritas, e parece fazer parte do código genético do hipócrita querer levar vantagem. Não admitimos ser passados para trás, ainda mais por quem marginalizamos. Era assim no tempo de Cristo. A nossa hipocrisia encolerizou até mesmo o Nazareno.  Quando o assunto é violência, então, estamos sempre nos escondendo em erros do passado para justificar, ou deixarmos de ver os atuais. Que hipocrisia!
Exemplo? Séculos depois, continuamos olhando para a Idade Média como se estivéssemos em relação a ela numa situação melhor. Como podemos julgar como “Idade das Trevas” uma época se em violência (objeto desse julgamento) nós a superamos? Estão aí as duas grandes guerras com todas as suas marcas deixadas, como Auschwitz, para nos desmentir. Estão aí as nossas guerras contemporâneas, diárias, promovidas por nossos sistemas injustos, assassinos. Estão aí as manifestações diárias de preconceito e intolerância, das quais foi vítima a angolana.
                Avançamos em ciência e tecnologia, reduzimos o mundo ao tamanho de um chip, mas não encontramos remédio para uma doença que corrói nossas almas e talvez seja a única que, ao nos atingirmos, faz vítima aquele a quem julgamos diferente, ferindo-o, matando-o, marginalizando-o. Falo do etnocentrismo, essa velha tática de sobrepormos nossa cultura, nossa forma de pensar, de ser, de agir ao do outro para oprimi-lo, levarmos vantagem. Nossa hipocrisia tinge de sangue e vergonha nossa história.

BANALIZAÇÃO DO REIKI

Outro dia deparei-me com um carro com um dos símbolos do Reiki desenhado na carroceria. Se seu proprietário é reiquiano não sei qual o seu objetivo ao utilizar inadequadamente tal símbolo, e se não é certamente o faz por ignorância. Aliás, a ignorância está presente em ambos os casos. Seja como for o problema traz à discussão algo muito sério: estão banalizando o Reiki, profanando seus símbolos. Daqui a pouco tem gente tatuando-os no corpo sem ao menos saber do que se trata. Os símbolos devem ser utilizados unicamente para captação e transmissão da energia Reiki, não podendo em hipótese alguma servir a outros meios.


Como se sabe eles são considerados sagrados, não podem e não devem ser tratados como um desenho bonito para ornamentar automóvel de luxo. Basta lembrar que passaram séculos, talvez milênios, preservados em suas origens e para ter acesso a eles o doutor Mikao Usui passou 21 dias de extremo sofrimento, incluindo jejum, no Monte Kurama, no Japão.

Como tudo que chega no ocidente é banalizado, transformado em mercadoria, talvez esse seja o resultado dos inúmeros cursos de Reiki que se proliferam e que prometem ensinar toda a técnica em um final de semana, ou em um dia, apenas. Ensinam a técnica, mas esquecem a ética. Popularizar o Reiki é uma coisa, banalizá-lo é outra.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

LIVRO E CAVIAR

Ana Trajano

 

Não entendi, até agora, porque tiraram da rua a feira de livros, do Festival Recifense de Literatura, e a confinaram no luxuoso hall de um shopping. Elitizaram-na! A praça é do povo; o paço é da elite. Faltou povo, gente simples tocando os livros, passeando em suas páginas; faltou algazarra de crianças olhando desenhos, lendo estórias, escolhendo a que mais lhe agradasse. Faltou espaço para o conhecimento. Este, que já é apertado no bolso, não pode ser também em espaço.

Sou apaixonada por feiras. E quando a feira é de livros perco as rédeas dos meus sentidos: quero ver todos, ler todos, ouvir tudo o que se fala sobre todos e, principalmente, comprar todos. Mas a grana anda curta e o desejo de comprar nem sempre é satisfeito. Pena que não estou grávida: adoraria ter filhos com cara de livros. Um filho com cara do Fausto, de Goeth; outro com cara de Ulisses, de Joyce. Obesos em saber, altamente calóricos nas suas palavras, na sua poesia. Sempre que olhasse seus rostos, ou suas páginas, agradeceria ao meu desejo insatisfeito.

Como é bom ver o conhecimento sendo exposto em stands e barraquinhas como a mais simples das mercadorias. Pois é exatamente isso o que ele é, uma mercadoria: para ser adquirido é comprado, para ser repassado é vendido.

O problema é que essa mercadoria, que deveria ser gênero de primeira necessidade, é elitizada, tratada como caviar, e poucos podem sentir seu sabor, já que não conseguem chegar ao fundo mar onde está o esturjão, e arrancar-lhe as ovas, e muito menos comprá-lo. Conhecimento, infelizmente, ainda é tratado como produto específico para uma minoria endinheirada. Custa os olhos da cara, e assim como o faz com cd’s e dvd’s o rentável comércio da pirataria ainda não conseguiu falsificá-lo.

Conhecimento é para ser difundido, repassado, solto ao vento como sementes de girassol, ou pólen das flores, esperando o pássaro faminto que o espalhe até onde suas asas alcançarem.