segunda-feira, 17 de dezembro de 2012


As luzes do Natal

Ana Trajano

Daqui da janela do meu quarto, no sétimo andar, olho a rua lá embaixo, e vejo como está bonita, iluminada porque é dezembro, porque é Natal! É noite de lua cheia e a rua fica ainda mais clara. O mar também. De um brilho prateado que o transforma em uma enorme folha de papel alumínio, ondulada pela brisa. Uma árvore de Natal de água e luz beijando o horizonte! Assim é o mar nessa noite de lua!



Eu olho mais uma vez para o alto e, inesperadamente, vejo uma estrela cadente. Parece despencar, com seu pálido brilho, sobre um edifício, também iluminado. Há quanto tempo não via uma! Mas é Natal! É tempo de luz, de estrelas de plástico que brilham sobre árvores artificiais, de acácias verdadeiras pesadas de lâmpadas azuis! De estrelas cadentes anunciando um tempo novo talvez, guiando-nos ao nosso próprio coração, onde num estábulo, entre bois e vacas, brilha tranquila a luz da humanidade!


Como eu gostaria de ser nesse instante um astronauta e, lá do alto, de uma estação espacial, ver a terra aqui embaixo! Como deve está iluminada! Uma bola de luz girando no espaço, pois sei, não é apenas a minha rua, o meu bairro, que estão iluminados.!. É todo o planeta, todas as nações, todos os povos! Cristãos e não cristãos, porque é dezembro, porque é Natal, porque a mesma estrela que, com seu brilho, guiou os Reis Magos, continua guiando cada um de nós para o caminho, o entendimento daquilo que somos. É tão simples! Descubra! E você vai fazer de cada um dos seus dias um lindo Natal!

Há alegria em cada um de nós, visível, transparente, que brota do coração, também ele uma bola de luz. Uma felicidade que nasce do nosso desejo de amar, de ter paz, de ser feliz, de sermos luz, pois esse é o nosso destino! Iluminamos a casa, a árvore, a rua como resgate inconsciente daquilo que somos, daquilo que é o sol, a lua, as estrelas!... Pois somos líquidos de uma mesma fonte, células de um mesmo organismo, movidos por uma única energia, o amor! 

Tudo nos lembra renovação: as luzes, a casa pintada, os móveis novos!... E assim entramos o ano novo,"renovados” no espírito natalino. Até as roupas são novas! E se ao invés de esperarmos dezembro nos renovássemos de verdade todos os dias? Enchêssemos a casa de luz, a árvore de luz, e de luz enchêssemos nosso coração? Todos plugados em uma mesma energia: o amor! O mundo iria mudar! Guerras deixariam de existir! A terra seria uma aldeia de paz! Seria como a minha casa e a tua, o meu coração e o teu, pulsando no mesmo ritmo: o ritmo do amor, que transforma, e afaga, e compreende e nos enche nas noites iluminadas de Natal!

Por que temos que esperar dezembro? Porque aqueles que não conhecem o amor, que ainda não se descobriram luz, enchem-nos de conveniências, datas pré-estabelecidas, regras de economia que só favorecem a eles próprios, a seus próprios bolsos! O décimo não pode ser pago todos os meses, pois a economia entraria em colapso; o peru não pode ser comprado todos os dias. Talvez seja essa a resposta. Mas todos nós precisamos de paz, em pelo menos um dia do mês, um mês do ano. De nos lembrarmos luz. E eles sabem disso! Eles, os vendedores de ilusões!

Não espere uma data pré-estabelecida para se renovar, comemorar o seu renascimento, se encher de luz! Faça isso todos os dias! Se você prefere dezembro é bonito também. Mas não limite o seu Natal às regras do consumismo! Não faça dele uma ilusão! Pois dezembro passará, as luzes se apagarão e você terá que esperar mais um ano por aquilo que pode fazer hoje. Sem ilusão!

Você gosta de presépio? Eu também! Eu proponho: vamos armar o presépio todos os dias em nosso coração: Jesus, Maria, José, os Reis Magos! Não esqueça os bichinhos, pois entre os bichinhos ele nasceu! Não esqueça essa lição de amor e humildade, pois você viverá melhor com ela! Tem filhos pequenos? Eu também. Chame-os para montar o presépio com você! As crianças adoram! Você vai ver como é bom sentir Jesus nascer todos os dias dentro de você!...




segunda-feira, 19 de novembro de 2012



      CERCADOS PELA VIOLÊNCIA, REFÉNS DO MEDO

     Ana Trajano


Estamos cercados pela violência, somos reféns do medo. E eu me pergunto: por que a paz é tão difícil? A repressão a violência é visível  com as ações policiais, mas apesar disso, não conseguimos a paz. Esta, não a  conhecemos mais, aparece como visita em pequenos intervalos nas grandes cidades. Pois, logo após ondas de repressão, vêm novas ondas de violência. Por que, afinal, a paz é tão difícil? Será mesmo que é assim, ou somos nós que a estamos procurando de forma errada?
Digo “nós” como membros da sociedade na qual estamos inseridos e, portanto, nós enquanto sociedade, já que esta é resultado, ou  exteriorização, das nossas ações, ideias, pensamentos, conceitos, paradigmas, ou qualquer que seja o nome que queiramos lhe dar.
Sempre que procuramos efetuar ações de paz, na nossa vida, como indivíduos, ou na sociedade na qual vivemos, o fazemos de fora para dentro, quando deveria ser o contrário, de dentro para fora.  Tratamos o problema da violência como costumamos fazer com uma doença de pele,  a quem não damos nenhuma importância, e sobre a qual passamos um corticoide, ou qualquer outra pomada, sem nos preocuparmos com a causa, e ela – a doença – sempre volta.
 A paz, assim como a fé, não pode ser buscada fora de nós, em nosso exterior, pois ela simplesmente é  o resultado da prática - ou a soma - de todos os bons sentimentos, qualidades, virtudes, etc. Isto é, de tudo aquilo que está dentro de nós.
 Uma pessoa sem paz é aquela que está em débito consigo mesma, com o seu semelhante, com o mundo no qual vive. Um mundo sem paz é aquele cujos povos têm grandes dívidas uns para com os outros, e para com ele, o mundo. Um país sem paz é aquele que está em débito com seu povo. Débitos que têm nomes: injustiças, desrespeito à diversidade, etnocentrismo, toda forma de exploração em proveito próprio, etc.
 Mas quando um homem deve a outro, ou ao mundo, é a si também que está devendo, o débito maior é consigo mesmo. Assim também é com o país. O maior débito do Brasil é consigo mesmo, com o seu futuro. A dívida que tem com seu povo está sendo cobrada, no presente. Não há devedor que conheça a paz, porque ela não admite débito. E assim como não há dívida que não seja cobrada, nosso maior cobrador é nossa própria consciência.  
 Cristo cumprimentava seus apóstolos e seguidores desejando: “A paz esteja contigo”. A paz, podemos supor,  é condição básica para qualquer realização, ou seja, para que o discípulo possa realizar a obra do mestre, o filho a do pai, e  o governante para o governado. Tudo depende dela. Ninguém pode pregar o amor, a liberdade, a justiça, a igualdade se não estiver em paz, pois a paz para se estabelecer depende de tudo isto, pois ela é tudo isto.
Nosso país nunca resolveu a questão da violência, porque nunca resolveu seus débitos, sobretudo com as camadas mais pobres da população. Estes só se acumulam: a cada paciente que morre nas portas dos hospitais por falta de atendimento, a cada criança sem direito a uma escola pública de qualidade, a cada velho que deixa de ser assistido pela Previdência, a cada rua dos bairros pobres que deixa de ser saneada, etc. Enquanto os homens forem divididos por classes e as injustiças prevalecerem para privilegiar os mais abastados, os poderosos, o mundo não conhecerá a paz, pois a paz não admite divisões; só conhece a unidade!


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Do Romantismo a Ecofilosofia: uma visão
    holística do mundo ( Terceira Parte)

Ana Trajano


   Como vimos no texto anterior, é no Iluminismo onde encontramos a primeira semente do Romantismo na figura de Jean Jacques Rosseau que, apesar de inicialmente participar deste movimento, opõe-se mais tarde a ele, criticando o culto frio a razão e defendendo que "os sentimentos naturais conduzem o homem para o caminho correto, enquanto  a razão o desvirtua."
   A partir daí estavam lançados os alicerces do Romantismo, movimento que se opunha radicalmente a  visão puramente racional do ser e do mundo. Para os jovens românticos o homem não é só razão, não se reduz apenas a uma mente que pensa; ele é também espírito que se expressa através dos sentimentos. Negar essa realidade, é negar a totalidade humana.
   Como também é negar a totalidade humana dissociar o homem da natureza, o ser do mundo. Os românticos veem a natureza como um organismo vivo, uma infinita teia cósmica que, ao se mexer num fio, é no todo que se está mexendo. Eles não dissociam Deus da natureza; no seu entender a natureza é o próprio Deus. Para Schelling, maior dos filósofos românticos, tudo o que existe, em todos os reinos, é expressão visível de Deus. Por isso eles estavam sempre à procura do espírito das coisas. Goeth, por exemplo, achava inadmissível para um cientista debruçar-se sobre um ser morto com o propósito de estudá-lo. Pois a partir da sua morte, a criatura (uma borboleta, por exemplo) é apenas um cadáver, sem o princípio que o torna um ser. Para ele, jamais se compreenderá a totalidade do ser estudando apenas o cadáver.
   Partamos agora para a Ecofilosofia. Assim como o Romantismo, este movimento surgiu em momento de crise, no qual tudo parece estar sendo desconstruído e começamos a repensar os valores nos quais alicerçamos nossas sociedades. Todas as visões de mundo, todos os erros que cometemos, estão chegando ao seu ápice. Estamos sofrendo as consequências não apenas do nosso distanciamento da natureza, como já temia Rosseau, mas dos maus tratos que lhe causamos.
   A Ecofilosfia, ou Ecologia profunda, ou simplesmente Ecosofia, como preferem chamar outros, surgiu na década de 70, com o filósofo norueguês Arne Naess. Entre outros pontos, ela se constitui dos seguintes, aqui destacados:

  1-O bem-estar e o florescimento da vida humana, e da não humana, sobre a Terra têm valor em si próprios. Esses valores são independentes da utilidade do mundo não humano para propósitos humanos;

   2-A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desses valores e são valores em si mesmos;

   3-Os humanos não têm nenhum direito de reduzir essa riqueza e diversidade, exceto para satisfazer necessidades humanas;

 4-A interferência humana atual no mundo não humano é excessiva e a situação está piorando rapidamente;

 5-As políticas precisam ser mudadas. Essas políticas afetam estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas básicas. O estado de coisas resultante será profundamente diferente do atual;

 6-A mudança atual é basicamente a de apreciar a qualidade de vida (manter-se em situação de valor intrínseco), não a de adesão a um sempre crescente padrão de vida. Haverá uma profunda consciência da diferença entre grande e importante; 

 7-Aqueles que subscrevem os pontos precedentes têm a obrigação de tentar implementar, direta ou indiretamente, as mudanças necessárias.

  Como podemos observar, através desses pontos, a Ecofilosofia é ecocêntrica, ao contrário da ecologia rasa que antropocêntrica. Poderíamos distinguir melhor essa diferença afirmando que os objetivos da ecologia rasa são transitórios, passageiros, e colocam o desenvolvimento econômico acima do desenvolvimento pessoal.                    Toda a destruição da natureza se dá em nome desse desenvolvimento, pois o homem é sua meta, seu centro.
  Já a ecologia profunda questiona todos esses valores centrados apenas na economia, para um pretenso - e questionável- desenvolvimento humano. Ao analisar seus fundamentos podemos observar vários pontos em comum entre a Ecofilosofia e o      Romantismo, no que diz respeito as relações do homem com a natureza.
  Assim como o Romantismo, a Ecofilosofia só acredita na possibilidade de desenvolvimento que considere- e respeite- a integração do homem com o mundo no qual vive.
  Da mesma forma que a Ecofilosofia, o Romantismo, mais do que uma escola literária e artística- como convencionou-se identificá-lo- é uma cosmovisão, uma maneira de enxergar o mundo, de perceber que o homem não é um ser à parte do Planeta que habita, de enxergar, por fim, que não existe "eu e o mundo, mas eu no mendo."
  Nessa relação de superioridade em que se coloca, em nome da razão, a catarata provocada pelos valores que já se mostram tão superados, tão decadentes, não o faz enxergar que o mundo é superior a ele, pois é ele que está no mundo.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012



Do Romantismo a Ecofilosofia: uma visão
         holística do mundo (Parte II)

Ana Trajano


         Concluímos o texto anterior falando de homens que, desafiando o seu tempo, ousaram lançar outro olhar sobre a natureza, e a nossa relação com ela, alertando sobre os danos, para ambos, o modo como até então a enxergávamos: um mecanismo frio, sem alma, que serve apenas a nossa ambição.
         O que tem em comum todos eles? Seu espírito visionário, sua coragem e os movimentos que fundaram, ou influenciaram, em tempos distintos, isto é, o Romantismo, no século XVIII, e a Ecofilosofia, de Naees, no século XX. Esses dois movimentos entrelaçam-se  num mesmo objetivo: uma visão holística que promova a união do homem com a natureza, a fusão completa entre o ser e o mundo.
         Tentemos, agora, caracterizar estes movimentos e, através disto, estabelecer conexões entre ambos. O Romantismo teve início em fins do século XVIII, na Alemanha, e, aos poucos,alastrou-se por toda Europa, continente em crise que fervilhava com as mudanças, revoluções, particularmente a francesa. A própria Alemanha lutava ainda por sua unificação. Somando-se a tudo isso os ideais iluministas inquietavam a juventude, ou pelo menos parte dela.
         É no próprio Iluminismo onde se encontra a primeira semente do Romantismo, na figura de Jean Jacques Rosseau. Primeiro opositor ao culto frio  a razão, pregado pelos iluministas, ele passou a assegurar que “os sentimentos naturais conduzem o homem para o caminho correto, enquanto a razão o desvirtua.” Rosseau certamente referia-se a um modo de pensar que vinha desde Descartes, e que reduzia a identidade do homem à mente, agora acentuado com os ideais iluministas.
         De espírito visionário, ele enxergou que, acrescentando-se a isso, os ideais da sociedade capitalista, já tão fortes, que limitavam o desenvolvimento humano apenas ao progresso material, iriam culminar em desequilíbrios na relação do homem com a natureza, com grandes prejuízos para esta, ou para ambos.
         Para Rosseau, todo mal começou quando “o primeiro a que veio a ideia de cercar um lote de terra e de afirmar: “ isto me pertence”, e que encontrou pessoas suficientemente ingênuas para acreditar nele, foi de fato o fundador da sociedade burguesa. De quantos crimes, guerras, assassinatos, miséria e atrocidades teria poupado a humanidade aquele homem que tivesse arrancado os mourões, nivelado as valetas e convocado seus companheiros: “guardai-vos de acreditar nesse enganador! Estais perdidos se esqueceis que os frutos pertencem a todos e a terra a ninguém.”
         Deduz-se, assim, que da posse surgiu o poder absoluto sobre a terra, o domínio sobre ela e, com ele, a ganância. Mal que faz o homem esgotar todos os seus recursos, não lhe bastando tirar apenas o suficiente para o sustento, mas arrancando-lhe muito além do necessário para aquilo que considera progresso, e para seu desenvolvimento pessoal.










quarta-feira, 10 de outubro de 2012


                         Do Romantismo a Ecofilosofia: 
              uma visão holística do mundo
                                     (Primeira parte)
               Ana Trajano

Imagem: Google
         Houve um tempo no qual o homem curvava-se diante dos trovões, dos relâmpagos, da chuva que caía. A natureza estava acima dele, e ele ainda não havia desenvolvido a consciência egoica de que a razão o coloca em um patamar de superioridade com relação aos demais seres e ao mundo em que vive. Mas, aos poucos, esta consciência foi se desenvolvendo, e do medo nasceu o desejo de domínio, do desejo de domínio o de exploração: da natureza, de todas as criaturas.
         Hoje, o homem já não se curva com reverência, ou medo, diante dos trovões, dos relâmpagos, da chuva que cai, mas já não sabe o que fazer com as consequências da destruição ambiental, da devastação provocada não apenas pela busca de suprir suas necessidades, mas pela ganância, pelo conceito de desenvolvimento que formulou. Neste, parece estar invertida a posição dos verbos, na conjugação de uma convivência harmônica, com os demais seres, com o mundo em que vive, pois o “ter” vem sempre posicionado sobre o “ser”.
         Chegamos a um ponto em que a raça humana corre o risco de extinção, caso não venha a rever todos os valores nos quais baseou suas sociedades. Mas a partir de que instante começamos a correr este risco? A partir do instante, talvez, em que nos colocamos à parte da natureza, em que nos distanciamos dela, em que perdemos o sentido de unidade, de que somos um com ela, e passamos a enxergá-la apenas como um punhado de matéria pronta para ser explorada.
         Houve um tempo no qual este sentimento existiu em vários povos, ou civilizações primitivas que viam a natureza como mãe, que sabiam fazer parte do mesmo tecido cósmico (druidas, celtas, ciganos), mas à medida que o homem se  distanciava dela, foi também destruindo essas culturas, demonizando suas crenças, como o faz sempre que observa algum empecilho para os seus objetivos, mesmo que sejam os mais cruéis.
         Poucas foram as pessoas, num passado recente, que viram a natureza como um organismo vivo que pode – e está- sendo morto a cada pancada, a cada mar poluído, floresta devastada, solo infértil com os venenos que lhe cobrem. Mas essas pessoas como que deixaram impressos sua marca, sua palavra, seu grito de alerta que ecoa nas páginas da história sempre que atravessamos grandes crises.
         O que nos lembram esses homens? O mesmo que nos lembrou Beethoven quando, já surdo, nos disse, nos acordes da Nona Sinfonia, “que todos os homens são irmãos.” Nos bradam o mesmo que bradou Rosseau, ao nos mostrar como única saída o retorno à natureza. Nos alertam, como fez Novalis, que “a natureza é inimiga de posses.” Tentam, por fim, nos fazer entender, como o fez Arn Naees, que é urgente unir a alma do homem à alma do mundo, pois não existe o “eu e o mundo, mas o eu no mundo.”

                Continua na próxima semana.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012


                                               Seja a paz
                                       Ana Trajano          


Você já se sentiu a paz? Isso mesmo: não em paz, mas a paz. Sei, é estranho falar assim,  pois remete a uma ideia de santidade. Mais estranho ainda quando você sabe que de santo não tem nada. Mas o problema talvez seja exatamente este: a paz é tão difícil, tão maculada porque a imaginamos de forma errada: procuramos estar em paz, quando deveríamos ser a paz. Tudo o que não é a paz, a destrói para nós e em nós. Mas ela só é destruída  porque a enxergamos como uma entidade fora de nós.
            Isto é, perdemos a nossa identidade mais sagrada, a paz, e perdendo-a  passamos a vê-la como algo quase impossível,  só próprio dos santos. Ou seja, um pequeníssimo número de pessoas que ousaram não perder sua identidade. Para isso brigaram com o mundo sem brigar consigo mesmos, estiveram no mundo sem se deixar absorver por ele. Em resumo, foram guerreiras da paz porque sabiam ser ela própria.  Entendiam que a paz só existe quando se é a paz, pois ela não se estabelece, ou se destrói por si mesma. Ela só é destruída ou estabelecida em nós e a partir de nós.
             E a paz aqui passa até mesmo pelo desapego completo à vida, por nenhum temor da morte, pois estas criaturas entenderam, ou entendem, que o mundo pode tirar suas vidas, mas jamais matará a paz que elas são, que representaram, ou representam, pois a paz e suas almas são uma única essência.
            “Se alguém me matar hoje e eu morrer sem um gemido, aí sim terei sido um verdadeiro mahatma” (grande alma, em sânscrito). Palavras de Gandhi, 12 horas antes de ser assassinado, sem esboçar um gemido. Gandhi só conseguiu lutar pela paz no seu país, livrando-o do jugo dos ingleses, porque descobriu que ele próprio era a paz e, convicto da sua identidade, jamais se intimidou. A paz, como a alma,  é divina, e grande alma é aquela que não nega sua verdade para agradar ao mundo, ou a uns poucos.
            O mundo, na verdade, é um grande desafio. Estamos a cada segundo sendo desafiados a assumir, ou negar, aquilo que somos, dependendo do quão conveniente seja para nós uma ou outra posição. O medo mascara nossas digitais. O temor do conflito com o mundo, ou com o outro, pode até nos livrar de muitos dissabores, mas não nos livrará da batalha com nós mesmos. E esta talvez seja a pior. “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas,” dizia Martin Luther King. O grande dilema, ou a grande dor, é constatar que, o que silenciamos para o mundo, não conseguimos silenciar para nós.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


                GAIA: DE GOETH A LOVELOCK
Ana Trajano                 

Com a intensidade das desordens climáticas, muito se tem falado sobre a Hipótese Gaia na busca de explicações para o que está acontecendo. Poucos sabem, entretanto, que muito antes de Lovelock elaborar  sua hipótese, segundo a qual a Terra é um organismo vivo que sente e reage às agressões, Goeth, no século XVIII, já imaginava  o Universo dessa forma. E ia mais além: via a natureza como uma totalidade orgânica em profunda conexão com o mundo espiritual, e não apenas como um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento.
Na Primeira Parte do Fausto (Noite), quando o sábio, de mesmo nome, invoca o Espírito da Terra, e é surpreendido por ele, Goeth dá um exemplo disso: descreve este espírito como um princípio que permeia, ou impregna, o organismo do Universo. Vejamos os versos:

“Abaixo, acima bóio,
Aqui e ali vagueio!
A morte, o nascer,
Um pélago eterno,
Tecido cambiante,
Brilhante viver”.

Assim como Lovelock, cuja teoria não foi bem vista, Goeth também foi menosprezado pela comunidade científica da época. Consequentemente, suas pesquisas em vários ramos (ótica, anatomia, botânica, etc.) não tiveram a atenção que merecia. E o genial Goeth tornou-se mais conhecido nas artes como poeta e escritor do que como o cientista que foi. Deste, poucos conhecem. Na verdade, Goeth dava mais ênfase às suas pesquisas do que à sua produção literária.
O homem que deu vida ao Fausto, utilizou-se da literatura para transmitir sua cosmovisão e todo saber que detinha em ramos do conhecimento nos quais passeou com maestria. As primeiras páginas de sua principal obra, mostra claramente esse modo de enxergar a natureza, que se opunha à forma mecanicista como a ciência a via- e continua vendo. Goeth a descreve como uma teia de relações, onde tudo está conectado: se mexemos em um fio, o conjunto será atingido. Ao contemplar o signo do macrocosmo, Fausto afirma:

 “Como tudo no todo vai fundir-se
E atuam e vivem uns nos outros
Os seres!...”

Mas nem tudo está perdido.Em “Das Gottliche (O Divino), ode escrita pelo poeta em 1782, ele dá a receita para uma boa convivência com a natureza, lembrando-nos que  na constituição física somos iguais aos demais seres, pois somos feitos de matéria. O que nos diferencia é que somos seres espirituais. Concluímos que nesses dias tão difíceis, para nós e para a mãe Gaia, o que necessitamos é conectarmos nosso espírito ao Espírito do Universo.

“Que o homem seja nobre
Prestativo e bom!
Pois só isso
O diferencia
De todos os seres
Que conhecemos”.

Para nós, humanos, só nos resta a saída: ou sermos “prestativos e bons”,  fazendo jus à nossa privilegiada posição, no topo da árvore da vida, ou continuarmos agindo dentro desse enorme organismo vivo que é a Terra, como células cancerosas, com grande poder de malignidade.


                        O CORAÇÃO DA TERRA

Outro indicativo de que a Terra é um organismo vivo em profunda conexão com todos os seres é a Ressonância Shumann. Embora muitos não acreditem e vejam com ceticismo sua influência sobre o meio-ambiente e os seres, ela é uma realidade física e está incluída entre as constantes da natureza. Mas o que é e como funciona essa ressonância? Em resumo é um campo eletromagnético existente na Terra, descoberto em 1952 pelo físico alemão W.O Shumann. Esse campo se estende do solo até a parte inferior da Ionosfera que em distância corresponde a aproximadamente 100 quilômetros acima de nós.
Shumann constatou que esse campo eletromagnético funciona com uma ressonância (batidas, pulsações) mais ou menos constante de 7,83 hertz por segundo. Verificou-se depois que o cérebro humano e os vertebrados funcionam nessa mesma freqüência. Fora dela as pessoas adoecem. É o que acontece, por exemplo, com os astronautas. Sempre que em suas viagens espaciais eles saiam dessa frequência, adoeciam. Submetidos a um Simulador Shumann, recuperavam a saúde.
Na realidade, a Ressonância Shumann funciona como um marcapasso, responsável pelo equilíbrio da biosfera. O problema é que a partir da década de 80, e de forma mais acentuada, nos anos 90, essa ressonância aumentou de 7,83 hertz para 11 e 13 hertz. Isto é, o coração da Terra disparou. Segundo Leonardo Boff, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 2004, “coincidentemente desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo, e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas”. Outra conseqüência é a aceleração do tempo com redução da jornada de 24 horas apenas 16.
            

segunda-feira, 6 de agosto de 2012


A morte, essa inimiga de posses



Ana Trajano
                

A partida recente do meu pai encorajou-me, mais uma vez, a escrever sobre a morte, a refletir sobre ela. São Francisco de Assis a chamava de “irmã”, colocando-a no mesmo nível dos demais seres da criação, a quem tratava todos dessa forma, sentindo com ela a unidade que nos entrelaça a todas as coisas.  Mas o que é a morte? A morte não é uma criatura, não é um ser. O que é ela, então?
            A morte, a meu ver, é a execução do poder e da justiça divinas. A morte desconstrói todas as formas de desigualdades, diferenças e injustiças que nós criamos, em nossa tentativa egoísta de nos diferenciarmos e nos sobrepormos aos demais. A morte é sábia, justa, digna. Ela não conhece preconceitos, nem desigualdades. A morte não discrimina, não separa por classes, nem por cor da pele. A morte conhece uma única classe, a dos homens; uma única pele, a que nos cobre o corpo, seja qual for sua cor, pois sabe que isso apenas enriquece a diversidade que há dentro da unidade. Nada está fora dela; tudo está dentro, entrelaçado.
            Poderosa e justa, ela faz curvar-se diante de si o mendigo e o monarca, do mesmo modo, sem distinção. O rei e o súdito, o pobre e o rico,  o negro e o branco têm o mesmo destino: o seio da terra, o ventre da mãe natureza. Novalis, um dos fundadores do Romantismo, dizia que “a natureza é inimiga de posses”. Eu peço licença a Novalis para afirmar: a morte também é inimiga de posses.
 Basta refletir um pouquinho para concluir: sendo a morte expressão do devir da natureza, ela é inimiga de posses. São as posses, a nossa luta (às vezes insensata) para tê-las que nos levam a recorrer  às desigualdades, às injustiças, a explorar o outro em benefício próprio. A morte leva as pessoas a quem mais amamos, dos quais julgamos, muitas vezes,  “ter a posse”. Mas, na verdade, não temos a posse de nada;  somos nós que nos apossamos das coisas da natureza, pois, afinal, tudo parte dela e termina nela.  Não é a morte que tememos, mas o medo da desconstrução das crenças e sistemas nos quais baseamos nossa vida.
            A morte é a única certeza que  temos, diz a sabedoria popular. Mas nós levamos a vida a morrer de medo dela, a trata-la como um monstro de capa e capuz preto, com uma foice na mão. Eu pergunto: será que esse não é o monstro que existe dentro de nós, a nossa sombra, com a qual matamos nosso semelhante, sempre que discriminamos, julgamos, odiamos? Nós só retratamos aquilo que somos. As qualidades ou defeitos que observamos nos outros, na verdade existem dentro de nós.
            Eu concluo com duas perguntas: como podemos retratar a morte  dessa forma se nunca a vimos? Não está na hora de perdermos o medo da morte matando as mortes que existem em nós?

(Imagem: Google, sem referência quanto a autoria)

sexta-feira, 8 de junho de 2012


       O coração na "Cidade dos Ossos"  
   Ana Trajano                                                                                                        

A dualidade denso-sutil está presente no tecido cósmico como uma de suas principais características. O denso, por suas propriedades, é muito fácil identificar: é palpável, visível, ou, como poderia dizer alguns céticos, é “real”. O que não sabemos, ou não lembramos, é que a qualidade densa  é apenas reflexo da sutil. O mundo visível é apenas reflexo do invisível. É assim com o macrocosmo e é assim com nós, como partes integrantes dele. Isto é, como microcosmo.
                O que está presente no macrocosmo está também no microcosmo. Você pode perguntar: como assim? Podemos ter um sol e uma lua dentro de nós? E se os temos de que forma são representados?  Tantas vezes me fiz essa pergunta, buscando os correspondentes sutis do Universo dentro de mim; e tão imensa como a vastidão do cosmo, sentia-me imensamente perdida na minha própria vastidão, sem encontrar resposta, como uma criança a olhar para o alto, procurando uma estrela da qual ouviu falar, sem nenhum conhecimento sobre sua localização. Até que um dia encontrei um livro do líder espiritual indiano Sathya Sai Baba que satisfazia as indagações que tanto me inquietavam.
                Comprei-o por achar interessante os assuntos ali discutidos,  já que trata-se de uma série de entrevistas sobre temas vários, mas nem de longe me passava pela cabeça que nele estavam as respostas que tanto buscava. Quando cheguei ao capítulo XII, de “Elucidando Dúvidas”, qual não foi a surpresa que Baba guardava para mim: um capítulo inteiro exatamente sobre a questão. Nele, Baba responde a um devoto que tinha as mesmas dúvidas.
                Finalmente iria saber em que parte de nós se encontra, por exemplo, o nosso sol   sutil. Para Baba, nosso coração é, em nós, a forma sutil do firmamento ou espaço denso (akasha) e assim como este,  tudo permeia.
                E  de que forma está representado o sol nesse universo?  Qual a forma sutil do sol em nós? Segundo Baba, “sendo o coração esse céu, naturalmente é o intelecto o sol que o ilumina.” Nosso intelecto, portanto, é a forma sutil do Sol. Quando li isto, lembrei  do Gayatri, a oração mais antiga da qual se tem conhecimento, e cuja tradução é a seguinte: “Oh Mãe Divina, contemplamos a tua luz que ilumina os três mundos: físico, astral e causal. Rogamos a Ti que ilumines o nosso intelecto e disperse toda ignorância, assim como a esplendorosa luz do Sol dispersa toda escuridão.”
                Nesta oração, ou invocação à Luz, está claro a relação do intelecto com o Sol. É ele - o nosso intelecto- que, uma vez atingido pela luz divina, acaba com toda ignorância, ou escuridão que existem no céu que é o nosso coração. “Nada mais possui a extensão, a área e a largura desse firmamento do coração. Imagine quantas cenas, quantos sentimentos, quantas conjecturas, estão imersos e encerrados neles”, lembra Baba.
                Esse mesmíssimo coração tem seu espaço disputado por dois exércitos numa perpétua guerra: o Bem e o Mal, numa estreita ligação, de acordo Baba, com a guerra descrita no Mahabharata, épico indiano, que descreve a luta entre os Pandavas e os Kuravas. Os cinco irmãos Pandavas são as boas qualidades: verdade, retidão, paz, amor e não- violência. Já as más qualidades são muitas e, assim como os Kuravas, constituem uma horda. “Cada pessoa, sob o seu próprio firmamento do coração, em seu próprio campo de consciência, está travando esse combate a cada instante,” lembra.
                Nesse ponto da entrevista, o devoto lembra que na tal guerra havia milhões de soldados, carros e súditos e pergunta quem são eles em sua forma sutil no homem.  Ao que Baba responde que “os milhões de pensamentos, sentimentos e impressões são os soldados e os súditos. O s 10 órgãos dos sentidos são os regimentos e os cinco sentidos, as carruagens.”
O Senhor Krishna, que durante toda a batalha se manteve numa posição de neutralidade, é a Testemunha, conhecida como Atma, e o condutor da carruagem da alma individual. Hastinapura, a capital do Reino na qual se dá a batalha, é o corpo, ou a “Cidade dos Ossos”, onde se realizam todas essas manifestações sutis no homem.
Essa guerra terá fim algum dia? É a pergunta feita pelo devoto, e por cada um de nós.  Algum dia o homem conhecerá a paz?  Segundo  Baba, essa batalha travada  por nós, em cada um de nós, só terá fim quando  no homem não existir mais nem as boas nem as más qualidades, isto é, “quando ele se tornar inteiramente destituído de qualidades.”
À pergunta se esse combate não pode ser evitado, Baba afirma que sim e diz como. “Os reis desenvolvem o espírito de batalha porque têm confiança em seus súditos. Os súditos encorajam os soberanos a desatrelar os cães de guerra. As ilusões são os súditos que impelem o indivíduo à batalha. Onde houver escassez de tais súditos, não haverá guerra. Portanto, meu rapaz,  despoje-se de súditos como as ilusões, os enganos, os sentimentos de “eu” e de “meu”, e então poderá desfrutar de uma paz inabalável.”


Imagem: Google, sem referência quanto a autoria

sexta-feira, 4 de maio de 2012


Mas, afinal, o que é e onde está a Paz?

Ana Trajano                                             

 A paz não é apenas a ausência de conflito (violência, guerra..), mas é, sobretudo, a ausência de conflito, dos nossos conflitos internos, das nossas guerras íntimas. Violência alguma jamais seria cometida se ela não existisse antes como projeto dentro de nós, rabiscado por nossos temores, por nossos medos. Temores  que nos tornam fracos, dependentes dos exércitos que formamos para  habitar as muralhas do nosso coração, fortemente armados, sempre em alerta, prontos para o ataque. O medo tira-nos do centro, afasta-nos da nossa fonte. Foi assim com o primeiro relâmpago que vimos, com o primeiro trovão que escutamos. Lá estávamos nós amedrontados, buscando refúgio daquilo que somos, daquela de cujo ventre saímos, e a vê-la como inimiga: a natureza.
E, num instante, havíamos criado essa distância, este muro, e, de tal modo, que já não nos considerávamos parte dela, mas seres à parte dela. Deflagramos guerra contra a natureza, contra nós próprios, contra Deus. Perdemos a paz. A paz nasce também da consciência de unidade, de nós com o todo, com o mundo que nos rodeia. Perdemos a paz quando perdemos essa consciência, pois nos tornamos seres fragmentados, esquecidos de nossa essência, de nossa divindade.  E a verdade é: estamos sempre a negá-la, ou a buscá-la. Olhe à sua volta e verá: a humanidade divide-se entre os que admitem e buscam essa essência, e os que a negam. E o conflito existe de ambos os lados, pois os que a buscam precisam lutar contra os argumentos dos que a negam, e vice versa.
 Paz é o estado de espírito que se alcança quando vencemos em nós toda forma de conflito. O mundo pode estar em guerra e eu, ou você, estar em paz, mas o mundo pode estar em paz e eu, ou você, estar em guerra, pois a forma de violência mais difícil de ser vencida é a subjetiva, é a que está incrustrada nos nossos pensamentos, nos "pré-conceitos" que formamos do outro, nos nossos medos, nos nossos desejos vis, frutos quase sempre da nossa ganância, da nossa necessidade de discriminar, de excluir, de explorar para tirar proveito.
Todos os pacificadores precisaram antes se desnudar de suas violências internas, extirpá-las do seu coração: a violência dos atos, a violência dos pensamentos, a violência dos julgamentos.  Agnes Gonxha  Bojaxhi não teria sido  Madre Teresa de Calcutá se tivesse dentro de si  alguma forma de preconceito,  a começar pelo religioso (uma católica na terra dos hindus e muçulmanos), se dentro de si houvesse algum medo ou discriminação contra as pessoas a quem dedicou a vida, fez do serviço a elas a sua razão de ser: mendigos, portadores de todo tipo de deficiência, leprosos , tuberculosos, etc. E livre de preconceito foi muito corajosa para lutar contra o dos outros, porque liberta  de si  já havia conquistado a paz. Só conseguimos transmitir paz quando estamos em paz. Por isso a paz é tão difícil. Quem de nós não luta nesse instante consigo mesmo?
A grande batalha que travamos na vida é contra nós próprios, e o nosso maior desejo é encontrar a paz, a quem certamente só chegaremos quando acabarmos com a nossa fragmentação, a diversidade que existe em nós. Dizia Sathya Sai Baba que não somos apenas um, mas  três: aquele que pensamos que somos,  aquele que os outros pensam que somos e aquele que realmente somos. Quanta verdade! Nisto consiste a nossa fragmentação, e o desvio de nós próprios, pois o que pensamos que somos e o que os outros pensam que somos camuflam o nosso verdadeiro eu. Como conhecer a paz se eu não conheço nem a mim? Conhece-te a ti mesmo e conhecerás Deus, fonte de toda paz.
O texto a seguir- a Visão de Enoch, do Evangelho Essênio da Moisés-, lembra-nos que só quando desenvolvemos em nós a consciência de unicidade com o todo alcançamos a paz, pois neste todo reconhecemos Deus e re-conhecemos a nós mesmos. Afinal, Deus está sempre a nos dizer: “Por que temer se eu estou aqui?”


Serena-te e reconhece, Sou Deus

(Evangelho Essênio de Moisés - Visão de Enoch)



Galáxia Átomos pela Paz

Te falo. Serena-te, reconhece que Sou Deus. 
Te falei quando nasceu. Serena-te, sou Deus. 
Te falei em sua primeira contemplação. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em tua primeira palavra. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro pensamento. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro amor. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falei em teu primeiro cântico. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do pasto das pradarias. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das árvores dos bosques. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através dos vales e das colinas. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da montanha sagrada. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da chuva e da neve. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das ondas do mar. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da umidade da manhã. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através da paz do entardecer. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do fulgor do sol. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das estrelas brilhantes. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através das nuvens e das tormentas. Serena-te e reconhece, sou Deus. Te falo através do trono e do relâmpago. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo através do arco-íris misterioso. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei quando estiver só. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei através da sabedoria dos antigos. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei quando haja visto a meus anjos. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falarei por toda a Eternidade. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 
Te falo. Serena-te e reconhece, Sou Deus. 


                

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por uma audiência ética


Ana Trajano

Há quatro semanas venho expondo neste blog o problema da violência midiática e suas consequências para a formação, sobretudo de crianças e adolescentes. Vimos no primeiro texto apresentado que a televisão é um poderoso instrumento ideológico nas mãos da elite dominante para manipulação das massas e, neste contexto, os programas vespertinos "policiais" trazem consigo forte conotação ideológica que expõe a relação entre classes, segundo especialistas citados. (Ver texto “Violência midiática expõe relação entre classes.”


Mostramos que a exploração exagerada da violência tem amparo na inexistência de legislação específica que regule a televisão brasileira. E, no terceiro texto da série, apresentamos as principais teorias que explicam a violência, suas causas e consequências. Diante de tudo aqui exposto fica a conclusão: a violência só tem espaço na mídia porque damos audiência a ela. Não sabemos por qual motivo o sangue que circula nas veias do homem e lhe dá vida, parece atrai-lo tanto quando derramado, extinguindo ou comprometendo a vida de outro ser. Como se aquilo que não é visível ( a vida em sua essência) pudesse finalmente ser observado.


Não é à toa que Roma atraía a população com o sangue dos lutadores. Enquanto este era derramado, diante de plateias de milhares de pessoas, o império mantinha sua glória. Podemos dizer que era catártico para as massas. Para estas, a violência dos governantes, ou do sistema de governo romano, era esquecida na violência que Roma apresentava como espetáculo. O império acabou, mas o gosto pelo “divertimento” macabro continuou, e a televisão, infelizmente, substitui o palco dos gladiadores, com tanta morte e sangue apresentados.


Por trás daquela coisa horrenda estava a ideologia romana de dominação, assim como por trás do que é apresentado por nossa mídia, ou boa parte dela, está a ideologia de dominação de nossa elite.


Se a sociedade está violenta, a televisão não deve omitir-se de apresentar isto, cumprindo assim seu papel informativo. Mas entre “informar” ou agir como Roma,  há uma grande diferença. E o que se vê na televisão brasileira hoje é um verdadeiro patrocínio da violência, da qual ela, assim como um vampiro, tira parte do que lhe sustenta porque é audiência garantida.


A violência saiu do âmbito dos programas vespertinos policiais para ganhar as novelas que o brasileiro consome como feijão com arroz. Aquela que não tiver um assassino em potencial, de preferência engraçado, no estilo Tereza Cristina, parece correr o risco de não fazer sucesso. E a morte vai, cada vez mais, se tornando algo banal e engraçado como os personagens da televisão.


Mas, como afirmei acima, a violência na mídia só existe por dois motivos: porque tem quem a veja e pela falta de legislação que regule a TV. Se o Estado até agora fez vistas grossas, deixando de fazer a sua parte, cabe a nós fazer a nossa. E podemos começar estabelecendo uma audiência ética, treinando, ou “educando nosso olhar”, para vermos, e permitir que nossos filhos vejam, apenas programas que sejam proveitosos, do ponto de vista educativo, para o seu crescimento intelectual.


Audiência ética significa não apenas deixarmos de ver os programas com conteúdos violentos, mas também nos recusarmos a comprar produtos de empresas que patrocinem tais programas, pois são os patrocinadores que lhe garantem vida.





quinta-feira, 12 de abril de 2012

A “aceitação do inaceitável” e a morte do afeto
         Teorias explicam efeitos da violência na mídia
 

Ana Trajano

Joana é uma senhora de 76, católica praticante que não perdia a missa aos domingos. Com medo da violência que vê na televisão, ela não sabe mais o que é sair de casa. Tudo lhe assusta: sirenes, batidas na porta- mesmo que seja de familares-, passos na calçada, encontrar-se com alguém desconhecido na rua...Temerosa, ainda passa seu medo para as netas, contando os inúmeros relatos de casos de violência que assiste na televisão. Faz isso na esperança de que as meninas, todas adolescentes, procurem não sair, não ir às festas e permaneçam “seguras” em casa. “Tá muito perigoso! Você ver sair e não sabe se volta vivo”- afirma.

Pedro, de oito anos, passava as manhãs vendo os desenhos animados na TV e jogos de vídeo-game, todos de conteúdo violento. Eram os preferidos do menino. Certo dia ele chegou ao colégio e disse para a coleguinha que iria “matar todos ali. Iria fazer igual ao que tinha visto no jogo.” Assustada, a menina contou a mãe que procurou a coordenação de classe no dia seguinte. Qual não foi a surpresa de Ana ao ouvir da coordenadora que este mesmo jogo de cartas, baseado num desenho de mesmo nome, e armas de brinquedo, já haviam sido proíbidos, e eram recolhidos todos os dias na escola, mas os pais obrigavam a direção a devolve-los aos filhos.

Joana e Pedro são exemplos de como, banalizada, a violência vai fazendo suas vítimas, as fatais e aquelas que sobrevivem a ela, mas passam a apresentar problemas emocionais. Como explicar isto à luz da ciência? Qual a teoria, ou teorias, que explique (m) a questão da violência, e as consequências da exposição a ela, especialmente a midiática?

Muitos são os teóricos que têm se debruçado sobre o tema, e em contrapartida muitas são as teses existentes. Entre as principais contam-se aproximadamente 15. Entre as primeiras está a teoria lombrosiana que, mesmo sem nenhuma base científica, influenciou e, ao que parece, ainda continua influenciando muita gente no que se refere ao perfil do criminoso, sobretudo aqueles que que se deixam levar pelo preconceito.

Cesare Lombroso (1835-1909), psiquiatra, professor universitário e criminologista italiano, defendia a ideia segundo a qual o criminoso apresenta características físicas próprias, tais como: protuberância occipital acentuada, lábios grossos, nariz torcido, arcada dentária defeituosa, órbitas grandes, anomalias nos órgãos sexuais e, até, braços e mãos grandes, entre outros. Características que, como se percebe, são de pessoas consideradas “feias” e quem se enquadrasse nestas descrições podia representar uma “ameaça”. A teoria, como era de se esperar, caiu no descrédito por trazer em seu bojo o preconceito contra as minorias sociais.

A teoria lombrosiana está entre as consideradas geneticistas. A outra nessa linha é a do mapa cromossômico, segundo a qual a formação cromossômica determina também a agressividade da pessoa. Isto é, o comportamento agressivo é determinado geneticamente, pois o indivíduo o traz inscrito na sua herança cromossômica. Assim como a primeira, esta teoria não ganhou credibilidade científica, por não levar em consideração fatores sociais, psicológicos e históricos.

Os críticos da corrente geneticista afirmam que é um equívoco a conclusão implícita de que a violência é intrínseca à natureza humana. Entre os que compartilham este pensamento está o psicólogo social Erich Fromm, para quem a sociedade industrial moderna é a responsável pela onda de violência, graças as mazelas que apresenta, entre as quais o isolamento, a solidão, as tecnologias destrutivas, entre outros.

Engels também chegou a analisar a violência, vendo-a como resultado das relações de classe que se estabelecem a partir da propriedade privada dos meios de produção, já que isso representa a submissão daqueles que não possuem os meios de subsistência aos detentores  de sua propriedade.

A seguir, de forma bem resumida, algumas dessas principais teorias.

Teoria da evolução biológica – A violência é explicada através da luta pela sobrevivência. Os seres de maior poder ou força derrotam os mais fracos em nome da sobrevivência biológica.

Teoria psicofisiológica – A violência ocorre como efeito provocado por substâncias químicas e estímulos sensório-motores e comportamentais que podem alterar a conduta animal e humana. Drogas como a cocaína e o crack podem estimular e outras (álcool, maconha, heroína e alguns inalantes) podem inibir o sistema nervoso central, provocando comportamentos violentos. Apesar de ter grande credibilidade junto a comunidade científica, esta teoria é vista com restrições pelos cientistas sociais por não considerar problemas sociais, econômicos, políticos e culturais.

Teoria da dessensibilização - A perda de sensibilidade emocional, ou dessensibilização , é causada pelo ato prologado de ver violência na mídia. Segundo pesquisadores, a banalização da violência pode provocar indiferença social e política. “Neste contexto, a TV tem contribuído para fomentar o medo e a insegurança entre a população. O pior, entretanto, é o gradual processo de insensibilização decorrente da banalização da violência. Como diz Lasch, os mass media facilitam “a aceitação do inaceitável”. E mais: amortece o impacto dos acontecimentos, neutraliza a crítica e os comentários e reduz mesmo “a morte do afeto” a mais um slogan ou clichê.” A afirmação é do professor e doutor pela Usp, Magno Medeiros da Silva, no texto “Teoria das Violências, Mídia e Direitos Humanos”. Vale salientar que, entre outros, me baseei sobretudo neste texto para escrever o aqui exposto no que concerne especificamente às teorias.

Teoria da síndrome do medo – Medo exagerado e ansiedade incontrolável são alguns dos efeitos produzidos pela exposição à violência na mídia. Assim como para a senhora Joana, no exemplo citado acima, tudo e todos passam a ser suspeitos. Entre as crianças, segundo Magno Medeiros, este estado patológico dificulta a distinção entre ficção e realidade. A psicanalista Raquel Soiler, citada no mesmo texto, refere-se aos telespectadores como “teledependentes” e afirma que estes, principalmente as crianças, podem estar sofrendo de “televisiosis”, doença da contemporaneidade.

A exposição intensa a violência também pode provocar a perda de diretrizes éticas, além de insegurança e medo generalizados, segundo conclusões feitas pelos pesquisadores Werner Ackermann, Renauld Dulong e Henri Pierre jeu. Estaria deflagrando também uma espiral de violência na sociedade.

Teoria da orientação – Em resumo, o conteúdo do que é produzido na mídia serve como orientação, ou referência, que determina o comportamento do indivíduo. A mídia, neste sentido, estimula e reforça modelos, principalmente entre as crianças. Esta orientação, entretanto, depende de muitos fatores, entre os quais conteúdo da mídia,, frequência, formação, experiências passadas, ambiente familiar, etc.

(Imagem: Google)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Violência midiática: fiscalizar não é censurar
Ana Trajano

Voltando ao assunto da violência midiática, podemos refletir: qual a causa? O controle é possível? Jornalistas e cientistas sociais são unânimes na resposta: o problema é a falta de regulação do que é produzido pela mídia, no caso específico aqui discutido a televisão. Fato é que sem ela, o país tornou-se terra de ninguém, no qual a permissividade tem o mesmo tamanho da falta de fiscalização, e esta é confundida com censura.

Identificar a fiscalização com a censura tem sido prática muito bem utilizada pelos empresários brasileiros da área de comunicação e que, como se percebe, tem surtido efeito. “Esta é a operação ideológica mais presente no discurso do empresariado desde os anos 80,” afirma a jornalista e socióloga Maria Eduarda Rocha, em depoimento ao documentário “TV Alma Sebosa”, já citado em texto anterior, aqui neste blog.

O Estado, na sua opinião, não pode se omitir, tolerando a veiculação de todo tipo de mensagem, e necessita, o quanto antes, discutir essa regulação. “Não é a democracia que está sendo ameaçada quando o Estado intervém dessa forma; muito pelo contrário. Nós temos que pensar que quem tem que assumir os interesses coletivos é o Estado e a sociedade civil. Se depender das empresas de comunicação elas só o farão como uma resposta, quando forem pressionadas a isso”, afirma.

Não há possibilidade, ainda de acordo com ela, da democracia institucional no Brasil ser ampliada, transformando-se numa democracia de fato, sem a democratização da mídia. “É uma espécie de reforma agrária das ondas eletromagnéticas o que temos de produzir agora.”

A mesma opinião tem o jornalista Ivan Morais, em depoimento no mesmo documentário, para quem o concessionário de um canal de rádio ou TV tem compromissos com a sociedade, e para que estes sejam efetivados precisam passar pela regulamentação que pode ser feita de várias formas. “No Brasil, as leis que regulamentariam esse exercício do controle social jamais existiram”, enfatiza.

Mas o que é fiscalização e o que é censura? Há algo de comum entre ambas que possa confundi-las, a ponto de o empresariado recorrer a essa artimanha sempre que se lança um olhar sobre a necessidade da regulação? Não há nada em comum. São ações completamente distintas. Vejamos o que diz o professor e doutor em Comunicação pela Usp, Magno Medeiros da Silva, em “Teoria das Violências, Mídia e Direitos Humanos: ”Censura constitui uma ação coercitiva, repressora, uma violência a inalienável á liberdade de expressão e de imprensa. Fiscalizar constitui um ação de cidadania, um exercício da democracia, na medida em que a própria população vai redefinindo permanentemente os limites éticos que regem as interações e contradições sociais.” “Censurar nunca; fiscalizar sempre”, conclui.

No mesmo trabalho, Magno sugere como estratégias para a construção da cultura de paz e dos Direitos Humanos, os seguintes pontos: debate público e ações políticas, envolvendo os vários segmentos sociais; desenvolvimento de códigos de conduta profissional e empresarial; e educação face a mídia, objetivando formar receptores críticos, competentes e de refinada consciência ética e estética.















terça-feira, 27 de março de 2012

Violência midiática expõe relação entre classes

Ana Trajano

A violência midiática, que alimenta com sangue os programas vespertinos, longe de representar apenas um filão bastante lucrativo, do ponto de vista dos índices de audiência, descoberto pela televisão, expõe, sob a ótica dos fenômenos sociais, as faces da luta que se trava entre as classes dominante e dominada. Vale lembrar que os veículos de comunicação pautam-se, sobretudo, por interesses políticos e ideológicos. E são tantos os abusos cometidos, e tão pouca, ou nenhuma, a legislação que regule a televisão que fica a pergunta: por quê será?

Os “mass media”, ou meios de comunicação, particularmente a TV, na verdade apropriam-se da cultura da violência para, com base nela, montar seu espetáculo. Nesse contexto, a violência já não é mercadoria oferecida apenas pelos vespertinos aqui em discussão, mas as novelas, e até os infantis, estão recheados dela. E interesse político e ideológico, no caso específico da programação policial, está exatamente em mostrar a violência pela violência, sem nenhuma discussão, ou questionamento sobre suas causas.

“É a transformação da vida humana no espetáculo da carnificina, sem nenhuma discussão política ou sociológica. Só o circo humano no seu pior formato”, compara a professora Malena Contrera, doutora em Comunicação, em depoimento no documentário “TV Alma Sebosa”, projeto de conclusão de curso na Unicap (Universidade Católica de Perbambuco). Vale salientar que escrevi este texto inspirada no documentário, e todos os depoimentos que utilizei para ilustrá-lo fazem parte dele.

Se lançássemos outro olhar para enxergar além das câmeras veríamos a sutileza que há por trás das imagens captadas pelos programas policiais. De um lado a mídia, poderoso instrumento nas mãos da classe dominante, utilizando-se de deplorável narrativa para estigmatizar as classes que literalmente considera “baixas”, sem nenhum valor, quanto ao poder aquisitivo e cultural.

Vejamos o que diz a professora Malena.“Também é uma tentativa de estigmatizar a classe pobre como “classe pobre”: a classe pobre é sinônimo de violência, de baixaria, não tem nada que preste. Só consegue alguma ascensão através da música, do Funk, do Raggae. Ou seja, é uma maneira de manter cada classe no seu lugar.”

Por outro lado, estão as classes menos favorecidas buscando nesses conteúdos o meio através do qual possam se expressar, lembrar sua existência, expor suas inquietudes, seus problemas. “Em que outro espaço na televisão brasileira a classe pobre se ver representada? –indaga a professora, para quem ela só é vista através do que existe de pior. “O que ela tem de melhor ninguém mostra.”

Esses programas, é fato, conseguem índices maiores de audiência entre as classes mais pobres. Mas porque, afinal, isso acontece? Quem procura responder é o jornalista Ivan Moraes, enfatizando também a questão da representatividade buscada pelas camadas mais populares. Na sua opinião, eles fazem tanto sucesso menos pela questão da violência, ou mesmo da cobrança por justiça e cidadania, e mais por que as pessoas que vivem nessas comunidades veem neles a oportunidade de observar parte da sua realidade.

-A necessidade não é de ver violência, mas de ver coisas com as quais se identifiquem. É ali onde ele observa o sotaque dele, a rua dele, onde ele ouve falar o nome do seu bairro, afirma.

Realidade nem sempre mostrada em sua totalidade, pois, afinal, como bem lembra Malena, a mídia é um espelho, mas um espelho dos horrores que deforma, aumenta, engorda, torce...”Então os pobres se olham no espelho da mídia e se veem deformados por essa criminalização. Isso gera um impacto muito complicado nos bolsões de pobreza que perdem a fé na sua dignidade.”

Entre as consequências dessas distorções, apontadas por Ivan, estão as dificuldades que muitas pessoas têm de conseguir emprego, e faz com que algumas procurem mentir sobre o endereço em seus currículos, visto que alguns bairros estão estigmatizados pela criminalização.

TV ESPETÁCULO

Do ponto de vista comercial, fica mais fácil entender o problema da violência na mídia quando lembramos que veículos de comunicação, no caso a televisão, são empresas que sobrevivem da audiência dos produtos oferecidos, cuja essência é a imagem. Isto é, os anunciantes, obviamente, procuram divulgar suas mercadorias em programações com maior receptividade junto ao público. “Em nome da audiência se constrói o espetáculo! É um show!”, enfatiza a jornalista Stella Maris, lembrando que os programas policiais são construídos com esse objetivo.

No que se refere ainda a audiência, há um paradoxo muito grande entre as duas classes. Para as pessoas mais afetadas, ou visibilizadas por eles, isto é, aquelas que habitam as camadas mais populares, esses programas passam, de acordo com Ivan, a sensação de conforto, de que existe um parceiro, ou alguém, que está lá lutando por seus direitos.

Enquanto que aqueles telespectadores, que não precisam desses direitos garantidos, que contam com segurança, ou do aparelho policial, ou privada, os veem como humorísticos, que são engraçados muitas vezes por mostrar a desgraça da população. “É muito perigoso quando você olha para o seu companheiro, para o seu vizinho e vê na desgraça dele a sua diversão.”

Segundo a socióloga Maria Eduarda Rocha , na sociedade espetáculo o que é vivido diretamente, passa a ser experimentado através da imagem. “Espetáculo não é sinônimo, nem conjunto de imagem. Espetáculo é um tipo de relação social, em que a vida do sujeito é completamente povoada por imagens, que não são imagens quaisquer; são imagens de mercadorias.”

Esses programas, na sua opinião, estão transformando a violência numa mercadoria extremamente cobiçada, que vende muito, já que o capital não tem pudor. “Não cabe ao capital pensar que tipo de efeito social, ou político, está produzindo. Isso é uma tarefa da sociedade, que tem de receber o apoio do Estado.”

(Imagens: Google)