sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carol Queiroz, a você o título de “grande alma”!


Ana Trajano


O caminho da paz passa pelo perdão. O perdão é alimento para a paz, hóstia que lhe consagramos. Perdoar é ficar em paz e dá uma chance para que a paz se estabeleça. Perdoar é arrancar a bandeira branca de dentro de si, das trincheiras do coração, onde as dualidades (amor-ódio, vingança-perdão, etc.) costumam fazer campo de batalha, duelar-se, e exibi-la como vencedor de si mesmo, herói de nossas guerras íntimas. Pois antes de vencer o inimigo externo, é a nós que estamos vencendo.
Em sua famosa oração, São Francisco de Assis não apenas enfatiza estes duelos (“Onde houver ódio que eu leve o amor...”), mas nos faz lembrar que só vencendo-os somos capazes de ser instrumentos de paz, de estabelecer a paz, em princípio dentro de nós. (“Fazei que eu procure mais consolar que ser consolado”...)

Há poucos dias a jornalista Carol Queiroz comoveu o país ao perdoar os assassinos do seu esposo, Bruno Ernesto, em João Pessoa. Assim como Francisco, Carol foi instrumento de paz para uma cidade perplexa com tamanha violência, não apenas perdoando, mas preocupando-se antes em consolar amigos e familiares, do que ser consolada. Em poucas pessoas se vê tanta sensatez e riqueza de espírito, partindo principalmente de alguém tão jovem.

Mas perdoar não é fácil. É, com efeito, o mais difícil dos aprendizados espirituais, que, praticado, nos humaniza, nos torna seres melhores. Perdoar significa transcender: dores insuportáveis, perdas inimagináveis, sentimentos abomináveis, para os quais não estamos, e, às vezes parece, jamais estaremos preparados. Perdoar é transcender tudo isso e desfraldar, de dentro do peito ferido, a bandeira da paz e com ela poder cobrir o nosso pior inimigo. Carol Queiroz transcendeu sua dor para de dentro de si colher forças como quem acende luz num mundo em trevas, e pedir: “Meus amigos, continuem a orar, e deixem de lado o rancor e a mágoa. Sejam luz na vida das pessoas! Sejam sempre bons, sem deixar que a maldade os invada! Façam de suas vidas exemplos de fé e bondade!

Perdoar é estar além do bem e do mal. É pairar sobre ambos e não se identificar, pois todo mau parte da identificação e todo bem da desindentificação. Perdoar exige liberdade do espírito, neutralidade, imparcialidade. A mesma liberdade e desindentificação que fez Jesus olhar para seus algozes e dizer: “Pai, perdoai-lhes! Eles não sabem o que fazem!" O que equivale dizer: “Pai, não são eles; são os seus monstros interiores (sentimentos) com os quais eles estão identificados.”

E tão desindentificado era o Mestre de Nazaré que ensinava: “Se alguém bate de um lado da tua face, oferece-lhe o outro! Quem não está identificado não sente a dor do bofete, e leve é o peso da sua cruz. A desindentificação, neste sentido, serve como meio de desarmar o outro. Quando oferecemos a face, não estamos admitindo a nossa fragilidade; estamos mostrando a nossa superioridade diante do agressor, e com tanta força e com tanto poder que ele não resiste, dá-se por vencido. Pois não é força, ou poder físico; é espiritual!

A vitória dos grandes líderes pacifistas deve-se a este aprendizado. “Se alguém atirar em mim e eu morrer sem um gemido, você poderá dizer ao mundo que eu fui um verdadeiro Mahatma.” Palavras de Gandhi, doze horas antes de ser assassinado, e morrer sem esboçar um gemido. Gandhi não apenas mereceu o título de Mahatma (grande alma, em sânscrito), como, sem levantar uma arma, livrou seu país, a Índia, do jugo dos ingleses.

Velho ditado entre os orientais: “Deus te livre de ti mesmo!” Quanta verdade há nisto, pois identificados com os nossos sentimentos, dependendo deles, podemos ser os nossos piores inimigos. Se conseguirmos nos livrar de nós mesmos, isto é, do que existe de pior em nós, estamos livrando o mundo por consequência. Sim! “Deus te livre de ti mesmo!” Somos nossas piores vítimas, pois o mal que fazemos ao outro, é a nós que estamos fazendo.

“Jogue uma bola na parede e ela voltará para você”, dizia Einstein, buscando a forma mais simples para explicar sua teoria. “Não julgueis e não sereis julgados”, ou “não façais ao outro aquilo que não quereis que façam a ti mesmo”, eram ensinamentos do Mestre de Nazaré. É a lei do retorno! É lei Física! É lei espiritual! É dos poucos campos onde ciência e religião juntam-se numa única verdade.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A morte, essa estranha conhecida


Ana Trajano



Lição de Anatomia

A incoerência é um dos nossos principais atributos, estando mais presente em nossa vida do que imaginamos. Quando o assunto é a morte é onde somos mais incoerentes. Sempre que ela leva um dos nossos, ou alguém conhecido, costumamos dizer: “que descanse em paz”, ou “que fique em paz”, ou “que Deus o tenha”. Frases de conforto, de alento, para nós e para o outro. Reconhecemos, com isso, que a morte não é ruim; é algo bom! É redentora! Que vemos nela uma possibilidade de paz. Pois do contrário não a veríamos como um descanso. Ninguém descansa, ou tem paz, em um lugar ruim. Sei! “Ela pode representar o oposto para os maus”, dirão alguns dogmáticos de crenças espiritualistas, sob o argumento de que, para estes, depois da morte, virá o inferno, o purgatório, ou algo parecido.

Mesmo que tudo isso seja verdade, ainda assim ela representa a liberdade e a redenção. Pois céu e inferno, antes de existirem como realidades materiais, existem de forma abstrata, ou como estados de consciência, dentro de nós. Nós vamos para o lugar céu, ou para o lugar inferno, porque ao longo de nossa vida decidimos habitar um desses dois mundos. E qualquer que seja o que escolhemos, enfrentamos grandes batalhas contra nós mesmos ao longo da vida. A morte física representa, pois, o libertar-se, o redimir-se de nós próprios, depois de tantas guerras íntimas, para onde quer que se vá. A nós é dado o livre arbítrio e, feita a escolha, não há porque se queixar.

Passamos a vida temendo a morte, mas ela está inimaginavelmente presente em nosso dia-a-dia, e de formas nada sutis. Nós, em nossos temores, não a percebemos, ou procuramos ignorá-la. A morte é o alimento da vida, nossa ração diária! Está presente na carne do animal que matamos para comer, no vegetal que cortamos, na raiz que arrancamos... Alguma coisa, enfim, tem que morrer para que possamos viver.

Mas se ela é tão presente porque incoerentemente a tememos tanto? A religião, temos que admitir, tem sua grande parcela de culpa, por mostrá-la como uma desgraça e apresentar-se como a salvação, isto é, como a graça para livrar-se dela, da morte eterna. Com isso, nos enchem de medo e a transforma na mais temível realidade humana. Pois morrer representa a possibilidade de ir para o inferno, de ver perdida sua alma.

Melhor faria se nos fizesse lembrar que do amanhecer ao findar dos dias ela está junto de nós, pois dependemos dela para viver, que vida e morte são companheiras inseparáveis nos duelos da criação, nas polaridades cósmicas. Dizem que a tememos porque não a conhecemos. Puro engano! A conhecemos tanto quanto a vida. O problema é que não conhecemos a nós mesmos, nem o mundo no qual vivemos, pois do contrário não a temeríamos.

A morte é o processo de reciclagem mais perfeito que existe, do Universo e de nós mesmos. Nós, que nos alimentamos dela, um dia seremos alimento para todas as espécies que nos serviram de comida. Desintegrados nossos corpos, no mínimo, alimentarão os vermes que adubam a terra, onde nasce o capim, que alimentará o boi, que alimentará o homem!... É a dinâmica da vida! O espetáculo da criação!



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012


Cultura da paz x cultura da guerra

Ana Trajano


No meu livro de poesia infanto-juvenil “A Sementinha do-Bem-me-Quer” tem um poeminha que diz o seguinte:


Jovens oferecem flores aos policiais
 

“Sabe o que é

Cultura de paz?

É a sementinha

do bem-me-quer

plantamos no coração

e nasce um pé

pezinho de paz

cheio de bem-me-quer!”

Essa foi a forma mais simples que encontrei de mostrar às crianças a importância da cultura da paz, comparando-a à semente de uma flor que uma vez plantada floresce no coração em forma de paz, enchendo-o de bem querer, isto é, de amor por todos.

Obviamente, o termo cultura da paz não é tão simples assim, embora traga, intrínseco em si, semelhança com os meus versos. Cultura da paz uma vez semeada, e vivida, bem que parece com um campo florido de bem-me-quer: transforma a realidade dos corações nus num campo coberto de flores com o poder, assim como na canção de Vandré, de vencer canhões. Magnífica a canção de Vandré, pois a cultura da paz pode ser comparada a flores, interpondo-se sobre as armas, isto é, sobre a cultura da guerra.

Lembrei muito de Vandré esses dias com o episódio da repressão aos estudantes, no centro do Recife, em manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. Alguns manifestantes recorreram às flores, oferecendo-as aos policiais do Batalhão de Choque, que avançavam sobre eles. Cenas que a mídia não mostrou, preferindo substitui-las por críticas ferrenhas aos estudantes. Mais uma vez venceu, infelizmente, a cultura da guerra, que tem em nossa mídia, ou grande parte dela, o seu mais forte aliado.

A nossa cultura midiática está enraizada na cultura da violência. Não se vê, por parte dos meios de comunicação, nenhum esforço no sentido de implementar a cultura da paz. Ódio, disputa, ganância e crime estão entre os ingredientes mais usados na receita da boa audiência. Não nos é oferecida, sequer, a opção light. Por todos os canais e por todas as páginas a violência tem por limite o exagero: do corpo estendido, do sangue derramado, do desrespeito ao princípio da imparcialidade, nas palavras ditas e análises feitas, por profissionais que muitas vezes, ou se sentem ofendidos, ou tomam para si as dores de suas organizações e do Estado, repressor. Tudo isso muito bem mostrado no episódio dos estudantes, no Recife.


Protesto contra atitude do jornal

Pergunto-me como os profissionais de imprensa podem esquecer que o desenvolvimento da paz sustentável depende da mídia. São obrigados a isso? Triste realidade, mas de certo modo são, já que as empresas nas quais trabalham, e dependem para sobreviver, respondem unicamente às leis de mercado, subtraindo as leis da informação.

Infelizmente, vivemos em um mundo no qual as leis, tratados, manifestos, etc. são feitos para, em muitos casos, não serem cumpridos, o que apenas demonstra o poder da cultura da guerra. Em 1997 a UNESCO, em uma das suas atividades relativas à cultura da paz, reuniu em Puebla, no México, profissionais de imprensa (diretores e editores-chefe) de toda a América Latina. Desse evento resultou a declaração assinada por eles, reafirmando “sua adesão a uma sociedade na qual seus membros coexistem em paz e denunciem a cultura da guerra, em nome da Cultura da Paz. Reconheciam que o principal meio para a livre circulação de ideias é a imprensa independente.”

Reconheciam, também, que “a realização da harmonia interna no centro das sociedades, bem como o entendimento pacífico entre as nações, requerem transparência de informação e opinião”. Palavras ao vento!