segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por uma audiência ética


Ana Trajano

Há quatro semanas venho expondo neste blog o problema da violência midiática e suas consequências para a formação, sobretudo de crianças e adolescentes. Vimos no primeiro texto apresentado que a televisão é um poderoso instrumento ideológico nas mãos da elite dominante para manipulação das massas e, neste contexto, os programas vespertinos "policiais" trazem consigo forte conotação ideológica que expõe a relação entre classes, segundo especialistas citados. (Ver texto “Violência midiática expõe relação entre classes.”


Mostramos que a exploração exagerada da violência tem amparo na inexistência de legislação específica que regule a televisão brasileira. E, no terceiro texto da série, apresentamos as principais teorias que explicam a violência, suas causas e consequências. Diante de tudo aqui exposto fica a conclusão: a violência só tem espaço na mídia porque damos audiência a ela. Não sabemos por qual motivo o sangue que circula nas veias do homem e lhe dá vida, parece atrai-lo tanto quando derramado, extinguindo ou comprometendo a vida de outro ser. Como se aquilo que não é visível ( a vida em sua essência) pudesse finalmente ser observado.


Não é à toa que Roma atraía a população com o sangue dos lutadores. Enquanto este era derramado, diante de plateias de milhares de pessoas, o império mantinha sua glória. Podemos dizer que era catártico para as massas. Para estas, a violência dos governantes, ou do sistema de governo romano, era esquecida na violência que Roma apresentava como espetáculo. O império acabou, mas o gosto pelo “divertimento” macabro continuou, e a televisão, infelizmente, substitui o palco dos gladiadores, com tanta morte e sangue apresentados.


Por trás daquela coisa horrenda estava a ideologia romana de dominação, assim como por trás do que é apresentado por nossa mídia, ou boa parte dela, está a ideologia de dominação de nossa elite.


Se a sociedade está violenta, a televisão não deve omitir-se de apresentar isto, cumprindo assim seu papel informativo. Mas entre “informar” ou agir como Roma,  há uma grande diferença. E o que se vê na televisão brasileira hoje é um verdadeiro patrocínio da violência, da qual ela, assim como um vampiro, tira parte do que lhe sustenta porque é audiência garantida.


A violência saiu do âmbito dos programas vespertinos policiais para ganhar as novelas que o brasileiro consome como feijão com arroz. Aquela que não tiver um assassino em potencial, de preferência engraçado, no estilo Tereza Cristina, parece correr o risco de não fazer sucesso. E a morte vai, cada vez mais, se tornando algo banal e engraçado como os personagens da televisão.


Mas, como afirmei acima, a violência na mídia só existe por dois motivos: porque tem quem a veja e pela falta de legislação que regule a TV. Se o Estado até agora fez vistas grossas, deixando de fazer a sua parte, cabe a nós fazer a nossa. E podemos começar estabelecendo uma audiência ética, treinando, ou “educando nosso olhar”, para vermos, e permitir que nossos filhos vejam, apenas programas que sejam proveitosos, do ponto de vista educativo, para o seu crescimento intelectual.


Audiência ética significa não apenas deixarmos de ver os programas com conteúdos violentos, mas também nos recusarmos a comprar produtos de empresas que patrocinem tais programas, pois são os patrocinadores que lhe garantem vida.





quinta-feira, 12 de abril de 2012

A “aceitação do inaceitável” e a morte do afeto
         Teorias explicam efeitos da violência na mídia
 

Ana Trajano

Joana é uma senhora de 76, católica praticante que não perdia a missa aos domingos. Com medo da violência que vê na televisão, ela não sabe mais o que é sair de casa. Tudo lhe assusta: sirenes, batidas na porta- mesmo que seja de familares-, passos na calçada, encontrar-se com alguém desconhecido na rua...Temerosa, ainda passa seu medo para as netas, contando os inúmeros relatos de casos de violência que assiste na televisão. Faz isso na esperança de que as meninas, todas adolescentes, procurem não sair, não ir às festas e permaneçam “seguras” em casa. “Tá muito perigoso! Você ver sair e não sabe se volta vivo”- afirma.

Pedro, de oito anos, passava as manhãs vendo os desenhos animados na TV e jogos de vídeo-game, todos de conteúdo violento. Eram os preferidos do menino. Certo dia ele chegou ao colégio e disse para a coleguinha que iria “matar todos ali. Iria fazer igual ao que tinha visto no jogo.” Assustada, a menina contou a mãe que procurou a coordenação de classe no dia seguinte. Qual não foi a surpresa de Ana ao ouvir da coordenadora que este mesmo jogo de cartas, baseado num desenho de mesmo nome, e armas de brinquedo, já haviam sido proíbidos, e eram recolhidos todos os dias na escola, mas os pais obrigavam a direção a devolve-los aos filhos.

Joana e Pedro são exemplos de como, banalizada, a violência vai fazendo suas vítimas, as fatais e aquelas que sobrevivem a ela, mas passam a apresentar problemas emocionais. Como explicar isto à luz da ciência? Qual a teoria, ou teorias, que explique (m) a questão da violência, e as consequências da exposição a ela, especialmente a midiática?

Muitos são os teóricos que têm se debruçado sobre o tema, e em contrapartida muitas são as teses existentes. Entre as principais contam-se aproximadamente 15. Entre as primeiras está a teoria lombrosiana que, mesmo sem nenhuma base científica, influenciou e, ao que parece, ainda continua influenciando muita gente no que se refere ao perfil do criminoso, sobretudo aqueles que que se deixam levar pelo preconceito.

Cesare Lombroso (1835-1909), psiquiatra, professor universitário e criminologista italiano, defendia a ideia segundo a qual o criminoso apresenta características físicas próprias, tais como: protuberância occipital acentuada, lábios grossos, nariz torcido, arcada dentária defeituosa, órbitas grandes, anomalias nos órgãos sexuais e, até, braços e mãos grandes, entre outros. Características que, como se percebe, são de pessoas consideradas “feias” e quem se enquadrasse nestas descrições podia representar uma “ameaça”. A teoria, como era de se esperar, caiu no descrédito por trazer em seu bojo o preconceito contra as minorias sociais.

A teoria lombrosiana está entre as consideradas geneticistas. A outra nessa linha é a do mapa cromossômico, segundo a qual a formação cromossômica determina também a agressividade da pessoa. Isto é, o comportamento agressivo é determinado geneticamente, pois o indivíduo o traz inscrito na sua herança cromossômica. Assim como a primeira, esta teoria não ganhou credibilidade científica, por não levar em consideração fatores sociais, psicológicos e históricos.

Os críticos da corrente geneticista afirmam que é um equívoco a conclusão implícita de que a violência é intrínseca à natureza humana. Entre os que compartilham este pensamento está o psicólogo social Erich Fromm, para quem a sociedade industrial moderna é a responsável pela onda de violência, graças as mazelas que apresenta, entre as quais o isolamento, a solidão, as tecnologias destrutivas, entre outros.

Engels também chegou a analisar a violência, vendo-a como resultado das relações de classe que se estabelecem a partir da propriedade privada dos meios de produção, já que isso representa a submissão daqueles que não possuem os meios de subsistência aos detentores  de sua propriedade.

A seguir, de forma bem resumida, algumas dessas principais teorias.

Teoria da evolução biológica – A violência é explicada através da luta pela sobrevivência. Os seres de maior poder ou força derrotam os mais fracos em nome da sobrevivência biológica.

Teoria psicofisiológica – A violência ocorre como efeito provocado por substâncias químicas e estímulos sensório-motores e comportamentais que podem alterar a conduta animal e humana. Drogas como a cocaína e o crack podem estimular e outras (álcool, maconha, heroína e alguns inalantes) podem inibir o sistema nervoso central, provocando comportamentos violentos. Apesar de ter grande credibilidade junto a comunidade científica, esta teoria é vista com restrições pelos cientistas sociais por não considerar problemas sociais, econômicos, políticos e culturais.

Teoria da dessensibilização - A perda de sensibilidade emocional, ou dessensibilização , é causada pelo ato prologado de ver violência na mídia. Segundo pesquisadores, a banalização da violência pode provocar indiferença social e política. “Neste contexto, a TV tem contribuído para fomentar o medo e a insegurança entre a população. O pior, entretanto, é o gradual processo de insensibilização decorrente da banalização da violência. Como diz Lasch, os mass media facilitam “a aceitação do inaceitável”. E mais: amortece o impacto dos acontecimentos, neutraliza a crítica e os comentários e reduz mesmo “a morte do afeto” a mais um slogan ou clichê.” A afirmação é do professor e doutor pela Usp, Magno Medeiros da Silva, no texto “Teoria das Violências, Mídia e Direitos Humanos”. Vale salientar que, entre outros, me baseei sobretudo neste texto para escrever o aqui exposto no que concerne especificamente às teorias.

Teoria da síndrome do medo – Medo exagerado e ansiedade incontrolável são alguns dos efeitos produzidos pela exposição à violência na mídia. Assim como para a senhora Joana, no exemplo citado acima, tudo e todos passam a ser suspeitos. Entre as crianças, segundo Magno Medeiros, este estado patológico dificulta a distinção entre ficção e realidade. A psicanalista Raquel Soiler, citada no mesmo texto, refere-se aos telespectadores como “teledependentes” e afirma que estes, principalmente as crianças, podem estar sofrendo de “televisiosis”, doença da contemporaneidade.

A exposição intensa a violência também pode provocar a perda de diretrizes éticas, além de insegurança e medo generalizados, segundo conclusões feitas pelos pesquisadores Werner Ackermann, Renauld Dulong e Henri Pierre jeu. Estaria deflagrando também uma espiral de violência na sociedade.

Teoria da orientação – Em resumo, o conteúdo do que é produzido na mídia serve como orientação, ou referência, que determina o comportamento do indivíduo. A mídia, neste sentido, estimula e reforça modelos, principalmente entre as crianças. Esta orientação, entretanto, depende de muitos fatores, entre os quais conteúdo da mídia,, frequência, formação, experiências passadas, ambiente familiar, etc.

(Imagem: Google)

terça-feira, 3 de abril de 2012

Violência midiática: fiscalizar não é censurar
Ana Trajano

Voltando ao assunto da violência midiática, podemos refletir: qual a causa? O controle é possível? Jornalistas e cientistas sociais são unânimes na resposta: o problema é a falta de regulação do que é produzido pela mídia, no caso específico aqui discutido a televisão. Fato é que sem ela, o país tornou-se terra de ninguém, no qual a permissividade tem o mesmo tamanho da falta de fiscalização, e esta é confundida com censura.

Identificar a fiscalização com a censura tem sido prática muito bem utilizada pelos empresários brasileiros da área de comunicação e que, como se percebe, tem surtido efeito. “Esta é a operação ideológica mais presente no discurso do empresariado desde os anos 80,” afirma a jornalista e socióloga Maria Eduarda Rocha, em depoimento ao documentário “TV Alma Sebosa”, já citado em texto anterior, aqui neste blog.

O Estado, na sua opinião, não pode se omitir, tolerando a veiculação de todo tipo de mensagem, e necessita, o quanto antes, discutir essa regulação. “Não é a democracia que está sendo ameaçada quando o Estado intervém dessa forma; muito pelo contrário. Nós temos que pensar que quem tem que assumir os interesses coletivos é o Estado e a sociedade civil. Se depender das empresas de comunicação elas só o farão como uma resposta, quando forem pressionadas a isso”, afirma.

Não há possibilidade, ainda de acordo com ela, da democracia institucional no Brasil ser ampliada, transformando-se numa democracia de fato, sem a democratização da mídia. “É uma espécie de reforma agrária das ondas eletromagnéticas o que temos de produzir agora.”

A mesma opinião tem o jornalista Ivan Morais, em depoimento no mesmo documentário, para quem o concessionário de um canal de rádio ou TV tem compromissos com a sociedade, e para que estes sejam efetivados precisam passar pela regulamentação que pode ser feita de várias formas. “No Brasil, as leis que regulamentariam esse exercício do controle social jamais existiram”, enfatiza.

Mas o que é fiscalização e o que é censura? Há algo de comum entre ambas que possa confundi-las, a ponto de o empresariado recorrer a essa artimanha sempre que se lança um olhar sobre a necessidade da regulação? Não há nada em comum. São ações completamente distintas. Vejamos o que diz o professor e doutor em Comunicação pela Usp, Magno Medeiros da Silva, em “Teoria das Violências, Mídia e Direitos Humanos: ”Censura constitui uma ação coercitiva, repressora, uma violência a inalienável á liberdade de expressão e de imprensa. Fiscalizar constitui um ação de cidadania, um exercício da democracia, na medida em que a própria população vai redefinindo permanentemente os limites éticos que regem as interações e contradições sociais.” “Censurar nunca; fiscalizar sempre”, conclui.

No mesmo trabalho, Magno sugere como estratégias para a construção da cultura de paz e dos Direitos Humanos, os seguintes pontos: debate público e ações políticas, envolvendo os vários segmentos sociais; desenvolvimento de códigos de conduta profissional e empresarial; e educação face a mídia, objetivando formar receptores críticos, competentes e de refinada consciência ética e estética.