segunda-feira, 17 de setembro de 2012


                                               Seja a paz
                                       Ana Trajano          


Você já se sentiu a paz? Isso mesmo: não em paz, mas a paz. Sei, é estranho falar assim,  pois remete a uma ideia de santidade. Mais estranho ainda quando você sabe que de santo não tem nada. Mas o problema talvez seja exatamente este: a paz é tão difícil, tão maculada porque a imaginamos de forma errada: procuramos estar em paz, quando deveríamos ser a paz. Tudo o que não é a paz, a destrói para nós e em nós. Mas ela só é destruída  porque a enxergamos como uma entidade fora de nós.
            Isto é, perdemos a nossa identidade mais sagrada, a paz, e perdendo-a  passamos a vê-la como algo quase impossível,  só próprio dos santos. Ou seja, um pequeníssimo número de pessoas que ousaram não perder sua identidade. Para isso brigaram com o mundo sem brigar consigo mesmos, estiveram no mundo sem se deixar absorver por ele. Em resumo, foram guerreiras da paz porque sabiam ser ela própria.  Entendiam que a paz só existe quando se é a paz, pois ela não se estabelece, ou se destrói por si mesma. Ela só é destruída ou estabelecida em nós e a partir de nós.
             E a paz aqui passa até mesmo pelo desapego completo à vida, por nenhum temor da morte, pois estas criaturas entenderam, ou entendem, que o mundo pode tirar suas vidas, mas jamais matará a paz que elas são, que representaram, ou representam, pois a paz e suas almas são uma única essência.
            “Se alguém me matar hoje e eu morrer sem um gemido, aí sim terei sido um verdadeiro mahatma” (grande alma, em sânscrito). Palavras de Gandhi, 12 horas antes de ser assassinado, sem esboçar um gemido. Gandhi só conseguiu lutar pela paz no seu país, livrando-o do jugo dos ingleses, porque descobriu que ele próprio era a paz e, convicto da sua identidade, jamais se intimidou. A paz, como a alma,  é divina, e grande alma é aquela que não nega sua verdade para agradar ao mundo, ou a uns poucos.
            O mundo, na verdade, é um grande desafio. Estamos a cada segundo sendo desafiados a assumir, ou negar, aquilo que somos, dependendo do quão conveniente seja para nós uma ou outra posição. O medo mascara nossas digitais. O temor do conflito com o mundo, ou com o outro, pode até nos livrar de muitos dissabores, mas não nos livrará da batalha com nós mesmos. E esta talvez seja a pior. “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas,” dizia Martin Luther King. O grande dilema, ou a grande dor, é constatar que, o que silenciamos para o mundo, não conseguimos silenciar para nós.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012


                GAIA: DE GOETH A LOVELOCK
Ana Trajano                 

Com a intensidade das desordens climáticas, muito se tem falado sobre a Hipótese Gaia na busca de explicações para o que está acontecendo. Poucos sabem, entretanto, que muito antes de Lovelock elaborar  sua hipótese, segundo a qual a Terra é um organismo vivo que sente e reage às agressões, Goeth, no século XVIII, já imaginava  o Universo dessa forma. E ia mais além: via a natureza como uma totalidade orgânica em profunda conexão com o mundo espiritual, e não apenas como um mecanismo frio e sem alma, constituído apenas por matéria em movimento.
Na Primeira Parte do Fausto (Noite), quando o sábio, de mesmo nome, invoca o Espírito da Terra, e é surpreendido por ele, Goeth dá um exemplo disso: descreve este espírito como um princípio que permeia, ou impregna, o organismo do Universo. Vejamos os versos:

“Abaixo, acima bóio,
Aqui e ali vagueio!
A morte, o nascer,
Um pélago eterno,
Tecido cambiante,
Brilhante viver”.

Assim como Lovelock, cuja teoria não foi bem vista, Goeth também foi menosprezado pela comunidade científica da época. Consequentemente, suas pesquisas em vários ramos (ótica, anatomia, botânica, etc.) não tiveram a atenção que merecia. E o genial Goeth tornou-se mais conhecido nas artes como poeta e escritor do que como o cientista que foi. Deste, poucos conhecem. Na verdade, Goeth dava mais ênfase às suas pesquisas do que à sua produção literária.
O homem que deu vida ao Fausto, utilizou-se da literatura para transmitir sua cosmovisão e todo saber que detinha em ramos do conhecimento nos quais passeou com maestria. As primeiras páginas de sua principal obra, mostra claramente esse modo de enxergar a natureza, que se opunha à forma mecanicista como a ciência a via- e continua vendo. Goeth a descreve como uma teia de relações, onde tudo está conectado: se mexemos em um fio, o conjunto será atingido. Ao contemplar o signo do macrocosmo, Fausto afirma:

 “Como tudo no todo vai fundir-se
E atuam e vivem uns nos outros
Os seres!...”

Mas nem tudo está perdido.Em “Das Gottliche (O Divino), ode escrita pelo poeta em 1782, ele dá a receita para uma boa convivência com a natureza, lembrando-nos que  na constituição física somos iguais aos demais seres, pois somos feitos de matéria. O que nos diferencia é que somos seres espirituais. Concluímos que nesses dias tão difíceis, para nós e para a mãe Gaia, o que necessitamos é conectarmos nosso espírito ao Espírito do Universo.

“Que o homem seja nobre
Prestativo e bom!
Pois só isso
O diferencia
De todos os seres
Que conhecemos”.

Para nós, humanos, só nos resta a saída: ou sermos “prestativos e bons”,  fazendo jus à nossa privilegiada posição, no topo da árvore da vida, ou continuarmos agindo dentro desse enorme organismo vivo que é a Terra, como células cancerosas, com grande poder de malignidade.


                        O CORAÇÃO DA TERRA

Outro indicativo de que a Terra é um organismo vivo em profunda conexão com todos os seres é a Ressonância Shumann. Embora muitos não acreditem e vejam com ceticismo sua influência sobre o meio-ambiente e os seres, ela é uma realidade física e está incluída entre as constantes da natureza. Mas o que é e como funciona essa ressonância? Em resumo é um campo eletromagnético existente na Terra, descoberto em 1952 pelo físico alemão W.O Shumann. Esse campo se estende do solo até a parte inferior da Ionosfera que em distância corresponde a aproximadamente 100 quilômetros acima de nós.
Shumann constatou que esse campo eletromagnético funciona com uma ressonância (batidas, pulsações) mais ou menos constante de 7,83 hertz por segundo. Verificou-se depois que o cérebro humano e os vertebrados funcionam nessa mesma freqüência. Fora dela as pessoas adoecem. É o que acontece, por exemplo, com os astronautas. Sempre que em suas viagens espaciais eles saiam dessa frequência, adoeciam. Submetidos a um Simulador Shumann, recuperavam a saúde.
Na realidade, a Ressonância Shumann funciona como um marcapasso, responsável pelo equilíbrio da biosfera. O problema é que a partir da década de 80, e de forma mais acentuada, nos anos 90, essa ressonância aumentou de 7,83 hertz para 11 e 13 hertz. Isto é, o coração da Terra disparou. Segundo Leonardo Boff, em artigo publicado no Jornal do Brasil, em 2004, “coincidentemente desequilíbrios ecológicos se fizeram sentir: perturbações climáticas, maior atividade dos vulcões, crescimento de tensões e conflitos no mundo, e aumento geral de comportamentos desviantes nas pessoas”. Outra conseqüência é a aceleração do tempo com redução da jornada de 24 horas apenas 16.