domingo, 3 de março de 2013


A TRAIÇÃO, MÃE DE TODAS AS FRAQUEZAS

 Ana Trajano


O Beijo de Judas, de Giottto de Bondone (Wikipedia)
         Conta-se que Alvarenga Peixoto ao tomar conhecimento de que fora descoberto como inconfidente, pensou em trair seus companheiros para livrar sua pele. Ao chegar em casa falou de sua intenção para a esposa, Bárbara Heliodora, enfatizando que seria o único meio de salvar sua vida, e de sua família não perder todos os bens, ficando na miséria. A decisão da bela Bárbara foi surpreendente:
         -Trair seus companheiros? Nunca! Prefiro a viuvez, a orfandade para os meus filhos, a pobreza, do que te ver entrar para a história como um traidor, disse ela, ao que Alvarenga Peixoto teria respondido: “Tens razão, Bárbara! Nunca fui vil, nem covarde.”  Ele morreu na prisão e ela terminou pobre e demente.
Ambos preferiram tudo isso a sucumbir àquela que talvez seja a raiz de todas as fraquezas humanas: a traição. Todo erro, na verdade, é uma traição. É um trair-se a si mesmo. É trair em si mesmo a possibilidade de crescimento. É trair a vida. É trair a lei universal de ascensão,  a que todos nós estamos submetidos. Nós estamos aqui para aprender. Se o mundo é uma escola, a vida é a lição. Bárbara Heliodora entendeu isso.
Neste sentido, a confiança nos outros e em nós mesmos é didática; trair a confiança é optar pela ignorância, pela estagnação do processo individual de crescimento. Por entender isso, Judas preferiu a morte. Sabia que, a partir daquele dia, jamais ficaria em paz. O traidor não a conhece, pois sabe que, sobretudo, traiu a si mesmo. Confiança é uma fiança que se oferece a outro, e a nós, e a pior fiança traída é aquela que deixamos de pagar a nós mesmos.
Talvez nenhum outro erro decepcione tanto quanto a traição, quando parte daqueles a quem amamos e a quem confiamos a nossa vida, os nossos segredos e o nosso amor. Quando pensamos assim, entendemos  perfeitamente o espanto de Júlio César: “Até tu, Brutus?” E a tristeza de Jesus: “Judas, é com um beijo que trais teu mestre?”
A traição é tão perversa que, em vários momentos da história, ela está associada à morte, começando por Caim ao matar Abel. Ela é, ao que parece, o primeiro pecado do homem e começou quando Adão e Eva traíram a confiança do próprio Deus. A traição quando não mata, fere gravemente o coração de suas vítimas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


                               O CORPO DA MORTE
                                            Ana Trajano

Animais confinados para o abate
            “...E a carne de animais mortos em seu corpo transformar-se-á em seu próprio túmulo. Pois em verdade vos digo, quem mata, mata a si e quem come a carne de animais mortos come o corpo da morte. Pois no seu sangue cada gota do sangue deles se converte em peçonha; no seu hálito o hálito deles tresandará; na sua carne ferverá a carne deles; em seus ossos os ossos deles alvejarão; em seus intestinos os intestinos deles apodrecerão; em seus olhos os olhos deles se escamarão; em seus ouvidos os ouvidos deles se encherão de cera e a morte deles será a sua morte...”
            Palavras atribuídas ao Mestre de Nazaré, segundo o Evangelho Essênio da Paz, coleção de textos encontrados nos arquivos do Vaticano e organizados por Edmond Bordeaux Szekely.
 Nós, seres humanos, nos orgulhamos de que a consciência e a razão nos colocam no topo da árvore da vida, isto é, numa posição de superioridade com relação aos demais seres da criação. Nenhum outro ser, afinal, baseia sua vida na ciência; são, a nosso ver, pobres de saber. A própria palavra consciência, esse substantivo do qual tanto nós nos orgulhamos, lembra isso:  viver com ciência.
            Do ponto de vista, alimentar, entretanto, ainda não saímos da caverna, nos comportamos como o mais primitivo e irracional dos seres. Somos animais carnívoros, selvagens e a nossa selvageria nos coloca em posição inferior àqueles a quem classificamos de irracionais. Os animais matam para saciar a fome; nós matamos não apenas para saciar a fome, mas para saciar o nosso prazer de comer, e comemos até sem fome, mas apenas para alimentar o status de frequentar o restaurante da moda.
            Nenhum animal come por diversão, mas o sangue dos animais sacrificados rega as nossas festas, na carne que consumimos sem pensar, nem por um instante, na crueldade pela qual passou o animal que está à nossa mesa.  Crueldade? Bobagem, pensam muitos. Porque, afinal, pensar nisso se o que tem de ser levado a sério mesmo são os churrascos nos finais de semana que empanturram nosso conceito de felicidade?
            “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos se tornariam vegetarianos”, já li em algum lugar. Os matadouros não são transparentes, mas catástrofes como a seca, por exemplo, expõem nossa hipocrisia, nossa incoerência. Nós nos penalizamos com os animais mortos de fome, mas parecemos esquecer que esses mesmos animais que morrem de fome teriam uma morte não menos cruel para saciar a nossa.
            Segundo dados da Farm Animal Rights Movement, aproximadamente 10 bilhões de animais são mortos por ano só nos Estados Unidos e, em todo o mundo, são aproximadamente 58 bilhões. No Brasil, segundo estatísticas mais recentes, são 3 milhões sacrificados diariamente. Neste número não estão incluídos aqueles que são abatidos para alimentar o nosso ego e nos diferenciar em preço e produto nas bolsas, calçados, casacos e tantos outros acessórios. É muito sangue dos seus próprios filhos a encharcar o solo da Mãe Terra....
           
            

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


 O TAMANHO DO DEMÔNIO
Ana Trajano



São Miguel Arcanjo, de Veiga Valle. Museu de Arte Sacra
da Igreja da Boa Morte, Cidade de Goiás
“...E eles viram, então, com pasmo e terror, que Satanás saía da boca do homem na forma de um verme abominável e se encaminhava diretamente para o leite que levantava fumaça. Jesus, então, tomou de duas pedras pontudas nas mãos e esmagou-lhe a cabeça, e arrancou do corpo do homem doente todo o corpo do monstro, quase tão comprido quanto o homem. Quando o verme execrável saiu da garganta do homem doente, este recuperou imediatamente o alento e, nesse instante, todas as suas dores cessaram e fitaram os olhos assustados no corpo de Satanás.
            “Vê a besta execrável que carregaste e alimentaste no teu corpo durante longos anos. Expulsei-a de ti e matei-a para que ela nunca mais possa atormentar-te. Dá graças a Deus pelos seus anjos te haverem libertado e não peques mais, a fim de que Satanás não retorne a ti outra vez. Que o teu corpo seja, daqui por diante, um templo dedicado ao teu Deus...”
            Trecho que retirei do “Evangelho Essênio da Paz para falar de um assunto para alguns polêmico, para outros nem tanto. Longe de ser discurso moral, ou bíblico-religioso, a verdade é que desde sua queda o homem tem dentro de si Deus e o Diabo, cabendo-lhe, conforme seu livre-arbítrio, qual dos  dois deve seguir.
            Sempre imaginamos Satanás – e a iconografia religiosa contribui o suficiente para isso- como algo exterior a nós, isto é, aquele monstro de chifres e rabo grande a nos tentar. Mas a realidade é que ele está dentro de nós, pois tudo aquilo que nos tenta, que tira a nossa paz, que nos desvirtua do bem está dentro de nós, na forma de sentimentos, pensamentos, ações. Satanás pode muito bem ser chamado, ou ter por apelido, “senhor ódio”, “senhor rancor”, “senhora injustiça”, “senhor preconceito”, “senhora inveja”, e tantos e tantos outros.
            Satanás tem o tamanho das nossas ações, do mal que fazemos, e do bem que deixamos de fazer. Ele pode ter a medida do nosso corpo, ou ser bem menor que ele, pode ser muito bem malhado, ou raquítico, dependendo apenas de como o alimentamos. Às vezes Satanás tem o tamanho de toda uma coletividade, ou dos números de tristes holocaustos.
            Certa vez um professor meu de Filosofia disse em sala de aula, que só ao visitar Auschuwitz teve a certeza  de que o homem traz dentro de si Deus e o diabo. Essa afirmação chocou a turma, mas não a mim, que sempre soube disso.
            Quando eu era criança, sentia muito medo de uma imagem que mamãe tinha em casa, com São Miguel Arcanjo dominando o demônio, pisando sobre ele. Em uma mão São Miguel trazia uma espada e na outra uma balança. Aquilo sempre me intrigou. A balança, diziam-me, representa a justiça, e eu me perguntava: que justiça iria São Miguel medir no diabo se não existe nenhuma justiça no demônio?
             Hoje sei que o Satanás que São Miguel pisa é  aquele que temos em nós, e a balança da justiça mede o seu peso, ou tamanho, isto é, o que temos  de mau e de bom, o que temos de Deus e do diabo. Rezo todos os dias para que São Miguel domine o que há em mim e Jesus, assim como fez com aquele que habitava  o corpo do homem doente, expulse-o e esmague-lhe a cabeça.