sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


                               O CORPO DA MORTE
                                            Ana Trajano

Animais confinados para o abate
            “...E a carne de animais mortos em seu corpo transformar-se-á em seu próprio túmulo. Pois em verdade vos digo, quem mata, mata a si e quem come a carne de animais mortos come o corpo da morte. Pois no seu sangue cada gota do sangue deles se converte em peçonha; no seu hálito o hálito deles tresandará; na sua carne ferverá a carne deles; em seus ossos os ossos deles alvejarão; em seus intestinos os intestinos deles apodrecerão; em seus olhos os olhos deles se escamarão; em seus ouvidos os ouvidos deles se encherão de cera e a morte deles será a sua morte...”
            Palavras atribuídas ao Mestre de Nazaré, segundo o Evangelho Essênio da Paz, coleção de textos encontrados nos arquivos do Vaticano e organizados por Edmond Bordeaux Szekely.
 Nós, seres humanos, nos orgulhamos de que a consciência e a razão nos colocam no topo da árvore da vida, isto é, numa posição de superioridade com relação aos demais seres da criação. Nenhum outro ser, afinal, baseia sua vida na ciência; são, a nosso ver, pobres de saber. A própria palavra consciência, esse substantivo do qual tanto nós nos orgulhamos, lembra isso:  viver com ciência.
            Do ponto de vista, alimentar, entretanto, ainda não saímos da caverna, nos comportamos como o mais primitivo e irracional dos seres. Somos animais carnívoros, selvagens e a nossa selvageria nos coloca em posição inferior àqueles a quem classificamos de irracionais. Os animais matam para saciar a fome; nós matamos não apenas para saciar a fome, mas para saciar o nosso prazer de comer, e comemos até sem fome, mas apenas para alimentar o status de frequentar o restaurante da moda.
            Nenhum animal come por diversão, mas o sangue dos animais sacrificados rega as nossas festas, na carne que consumimos sem pensar, nem por um instante, na crueldade pela qual passou o animal que está à nossa mesa.  Crueldade? Bobagem, pensam muitos. Porque, afinal, pensar nisso se o que tem de ser levado a sério mesmo são os churrascos nos finais de semana que empanturram nosso conceito de felicidade?
            “Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos se tornariam vegetarianos”, já li em algum lugar. Os matadouros não são transparentes, mas catástrofes como a seca, por exemplo, expõem nossa hipocrisia, nossa incoerência. Nós nos penalizamos com os animais mortos de fome, mas parecemos esquecer que esses mesmos animais que morrem de fome teriam uma morte não menos cruel para saciar a nossa.
            Segundo dados da Farm Animal Rights Movement, aproximadamente 10 bilhões de animais são mortos por ano só nos Estados Unidos e, em todo o mundo, são aproximadamente 58 bilhões. No Brasil, segundo estatísticas mais recentes, são 3 milhões sacrificados diariamente. Neste número não estão incluídos aqueles que são abatidos para alimentar o nosso ego e nos diferenciar em preço e produto nas bolsas, calçados, casacos e tantos outros acessórios. É muito sangue dos seus próprios filhos a encharcar o solo da Mãe Terra....
           
            

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