quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

ENCONTRANDO DEUS ENTRE AS PANELAS
 Ana Trajano


Santa Tereza D’Ávila dizia encontrar Deus entre as panelas. Isso sempre intrigou-me e colocou-me a pensar no que ela quis dizer. Nunca encontrei  uma resposta até o dia em que  vi-me obrigada a cuidar da minha casa. Avessa ao trabalho doméstico, entreguei o meu lar, desde que casei, aos cuidados de  uma empregada, ou secretária, como costumava chamá-la. Depois de 19 anos conosco ela decidiu ir embora, para ser enfermeira. E eu, sem nenhuma experiência, tive que aprender a lavar, passar, arrumar, cozinhar... Enfim, fui obrigada a fazer aquilo que devia ser feito não por obrigação, mas por amor:  ser verdadeiramente a dona da minha casa. 
         Acidentes aconteciam todos os dias, impreterivelmente: arranhões, queimaduras, cortes, quedas... Não podia negar, entretanto, que havia algo de gratificante em tudo aquilo: a sensação de estar, fisicamente, reconhecendo e tomando posse do meu lar, com tudo o que isso implica –  o espaço, os móveis, as minhas sujeiras, bagunças, dejetos. Desde o suor no lençol, aos restos alimentares da louça e a  lavagem do banheiro.  E reconhecer isso era reconhecer o pó e a sujeirinha que sou como ser de carne e osso.
         Aos poucos fui percebendo que  as atividades de casa exigiam de mim,  além do esforço físico, paciência e humildade- sobretudo essa última. Entendi, então, porque muitas mulheres detestam cuidar de suas residências e, finalmente, o que Santa Teresa quis dizer. O serviço doméstico exige  que nos humildemos e desçamos ao nível do chão para limpá-lo, e muitas de nós são vaidosas demais para isso. Tão vaidosas que, a cada dia, desafiamos mais e mais a gravidade, equilibrando-nos em saltos altíssimos que nos deixam centímetros além do chão.
         Pular dos scarpins  e descer até ele para limpá-lo é  visto como castigo. É dessa forma que o trabalho doméstico é apresentado. Basta que pensemos um pouquinho no final das vilãs arrogantes e malvadas das novelas brasileiras: sempre terminam limpando os assoalhos da vida.
 O que Santa Teresa quis dizer é que ninguém chega a Deus  se não através da humildade, de reconhecer-se como pó, e, reconhecendo-se, cuidar daquilo que somos, com muita dignidade. Limpar as panelas exige humildar-se e neste exercício encontramos Deus.  

Nossa vaidade nos leva a ter repugnância da sujeira que é nossa. Repugnados, nós a negamos e procuramos quem a limpe por nós. O problema maior é que muitos repugnam os que a limpam, recorrendo ao preconceito. Penso que está aí a origem da palavra “peniqueira”, usada por muitos para referir-se as empregadas domésticas. Peniqueira é aquela que lava o penico, isto é, as nossas sujeiras mais íntimas e fedidas. Os de egos inflados são bem espertos, pois só reduzindo-as a isto podem escravizá-las para que elas continuem a  lavar seus pinicos, isto é, limpar aquilo que, fazendo parte de si, não deixa de ser eles próprios.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OS SINOS QUE DOBRARAM POR NÓS
Ana Trajano

A morte de uma amiga minha fez-me pensar nas minhas amizades virtuais. Sou alguém de coração sincero, que não gosta de exageros e detesta mentiras. E é com toda sinceridade que digo: nunca pensei que a morte de um amigo virtual, de alguém que não tive o prazer de conhecer pessoalmente, fosse  causar-me tanto impacto, trazer-me uma dor até então desconhecida. Às vezes temos belo discurso, lindas crenças, mas às vezes também nos perguntamos: será que, algum dia,  irei colocar isto em prática, ou sentir na prática como isto é?
Sempre acreditei na unicidade de tudo, de que tudo converge para uma coisa única, de que somos e fazemos parte de uma enorme teia, indivisível, misteriosa, divina. Se mexermos em um dos seus fios, é no todo que estamos mexendo. Dentro desse contexto, somos todos um, e se um se vai leva junto um pedacinho de nós. Nenhum homem é uma ilha, já afirmava Jhon Donne. Consciente dessa realidade, lembrava: “a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
Nunca havia sentido essa realidade em mim,  vivenciada no âmago do meu ser- e olhe que muitos dos meus já se foram, entre parentes e conhecidos, pessoas amadas, presentes. Não vou sentir-me culpada agora por não ter sentido  o mesmo com relação a eles. Tudo tem seu tempo de ser, de se fazer, de tornar-se aprendizado. E eu aprendi agora, graças a uma amizade virtual, feita em algo cujo nome também  é muito sugestivo: a rede, isto é, a Internet -essa teia que transforma o mundo em uma enorme aldeia global, e deixa o outro tão próximo que quase podemos sentir sua respiração.
Aprendi que estar presente transcende  a coisa física, basta que estejamos conscientes da existência do outro como esse fiozinho que nos liga à vida, ao mundo. E esta é a mais bela das presenças: a do outro em nós, como parte de nós, transformando-nos em um só.

Aprendi que não existe “amizade virtual”. Existem apenas  AMIZADES, por que não existem seres virtuais, nem sentimentos virtuais. O coração do mundo, do espírito do mundo que a tudo abrange e acolhe não é virtual. O virtual é tão somente reflexo do espelho que é esta Realidade Maior. Quando nos conscientizarmos de que só existe uma família – a família humana – as guerras deixarão de existir, e jamais perguntaremos por quem os sinos dobram, pois saberemos que é por nós também que eles estão dobrando, pelo nosso pedacinho que se foi com o outro.