segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OS SINOS QUE DOBRARAM POR NÓS
Ana Trajano

A morte de uma amiga minha fez-me pensar nas minhas amizades virtuais. Sou alguém de coração sincero, que não gosta de exageros e detesta mentiras. E é com toda sinceridade que digo: nunca pensei que a morte de um amigo virtual, de alguém que não tive o prazer de conhecer pessoalmente, fosse  causar-me tanto impacto, trazer-me uma dor até então desconhecida. Às vezes temos belo discurso, lindas crenças, mas às vezes também nos perguntamos: será que, algum dia,  irei colocar isto em prática, ou sentir na prática como isto é?
Sempre acreditei na unicidade de tudo, de que tudo converge para uma coisa única, de que somos e fazemos parte de uma enorme teia, indivisível, misteriosa, divina. Se mexermos em um dos seus fios, é no todo que estamos mexendo. Dentro desse contexto, somos todos um, e se um se vai leva junto um pedacinho de nós. Nenhum homem é uma ilha, já afirmava Jhon Donne. Consciente dessa realidade, lembrava: “a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte da humanidade. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”
Nunca havia sentido essa realidade em mim,  vivenciada no âmago do meu ser- e olhe que muitos dos meus já se foram, entre parentes e conhecidos, pessoas amadas, presentes. Não vou sentir-me culpada agora por não ter sentido  o mesmo com relação a eles. Tudo tem seu tempo de ser, de se fazer, de tornar-se aprendizado. E eu aprendi agora, graças a uma amizade virtual, feita em algo cujo nome também  é muito sugestivo: a rede, isto é, a Internet -essa teia que transforma o mundo em uma enorme aldeia global, e deixa o outro tão próximo que quase podemos sentir sua respiração.
Aprendi que estar presente transcende  a coisa física, basta que estejamos conscientes da existência do outro como esse fiozinho que nos liga à vida, ao mundo. E esta é a mais bela das presenças: a do outro em nós, como parte de nós, transformando-nos em um só.

Aprendi que não existe “amizade virtual”. Existem apenas  AMIZADES, por que não existem seres virtuais, nem sentimentos virtuais. O coração do mundo, do espírito do mundo que a tudo abrange e acolhe não é virtual. O virtual é tão somente reflexo do espelho que é esta Realidade Maior. Quando nos conscientizarmos de que só existe uma família – a família humana – as guerras deixarão de existir, e jamais perguntaremos por quem os sinos dobram, pois saberemos que é por nós também que eles estão dobrando, pelo nosso pedacinho que se foi com o outro.

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