quarta-feira, 29 de março de 2017



                EXORCISTAS DE NÓS MESMOS
                Ana Trajano

                As tradições religiosas, em sua maioria, falam-nos de anjos e demônios, sendo estes últimos também anjos, só que caídos, rebelados, aqueles que se voltaram contra o Criador. Vivem estes dois exércitos em conflito  permanente, ininterrupto - a eterna luta do bem contra o mal, desde o começo da tal rebelião.
                Enganam-se, porém, os que pensam que anjos e demônios só existem nos mundos invisíveis dos planos espirituais. Eles existem também em suas formas sutis dentro de cada um de nós. Os anjos, ou soldados da luz, são as nossas virtudes, nossos bons pensamentos, o bem que desejamos e fazemos. São, enfim, cada chance que damos à paz, ao amor e a justiça  - essa trindade que, posta em prática, é fonte de todo bem.
                Os demônios, ao contrário, são as nossas más características, o bem que deixamos de fazer, a chance que deixamos de dar à paz, ao amor e a justiça.  Essas duas forças duelam-se, digladiam-se, vivem em constante batalha pelo território sagrado do coração. Cada guerra que existe no mundo, começa dentro de nós, tem início quando falhamos como exorcistas de nós mesmos.
                Céu e inferno têm início dentro de nós, existem em suas formas sutis no nosso interior e, dependendo das nossas escolhas, com base no livre-arbítrio, podem, sim, ser uma de nossas moradas nos planos espirituais.
                Lembro-me que uma das visões que Santa Teresa D'Ávila teve do inferno foi de um fogo que queima a alma por dentro, conforme ela relata no seu Livro da Vida. Existem demônios piores do que o ódio, o orgulho, a inveja, a arrogância e o preconceito?  São estes, entre tantos outros, que destroem o nosso território sagrado: o coração, alma humana. Existe fogo que arda com mais intensidade do que o de uma consciência que não está em paz?
                Várias são as passagens nos evangelhos que referem-se  ao mestre de Nazaré expulsando demônios. Sabemos que, todos aqueles que se deixavam e eram tocados por Jesus, mudavam suas vidas, abandonavam suas más características, voltavam-se para o bem. Deixemos, então, nos tocar por Ele e, assim como o bom ladrão, ainda hoje estaremos com ele no paraíso -  aquele paraíso que começa em nós.
               

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