Contos



Tua imagem na janela
Ana Trajano      
                                              

      Eu era repórter de um jornal da cidade onde morava, e certo dia fui escalada para fazer uma matéria sobre o Natal dos velhinhos que vivem em asilos. “Você é a pessoa certa” - disse o editor - “consegue escrever com a alma sem cair na pieguice”. Esses lugares sempre me deixavam triste, por isso eu não gostava de frequentá-los.
      Mas naquela manhã ensolarada de sexta-feira, 22 de dezembro, muni-me do máximo de coragem que precisava e saímos, eu e o fotógrafo, para os “tristes depósitos de velhos”, como nós os definíamos.
     O último a visitarmos era também o maior; se comparado com os outros, bem luxuoso. Mantido por uma ordem religiosa, era muito bem cuidado, muito bonito. Cercado de enormes árvores, sempre com pássaros gorjeando, grandes fruteiras e uma capelinha de vitrais azuis, onde todas as manhãs os velhinhos assistiam à missa. Podia-se dizer que era um bom lugar para se viver o final da vida.
       -Tão diferente dos outros! - comentei com o fotógrafo.
       Falei com a diretora e fui para a ala feminina, entrevistar as velhinhas. Terminado o trabalho, passei para a masculina, que ficava aos fundos da construção. Percebi que os homens recebiam menos visita que as mulheres e pareciam mais abandonados, mais solitários.
       Ali, as palavras eram escassas e o silêncio, tendo atingido seu limite, podia ser sentido como a espreita de algo que lhe rompesse as barreiras e pudesse extravasá-lo. Era tão forte que doía, lancinante. Alguns,  liam seus jornais, suas bíblias, enquanto outros, com o olhar fixo no vazio, nada pareciam ver, como se tivessem alcançado a fronteira com o nada e ali permanecessem, ansiosos à espera de que algo se consumasse, talvez sua morte.
        Inquieto, meu olhar perscrutava o corredor à procura daqueles que eu iria escolher para entrevistar. Enquanto caminhava para um deles, ouvi uma voz que quase sussurrava atrás de mim. Virei-me e vi um velhinho branco, de olhos azuis, nariz adunco, que me chamava gesticulando com o indicador.
          -Eu precisava vê-la de perto - disse, quando sentei ao seu lado.
           -Por quê? - perguntei.
           -Você é tão parecida com ela... A voz...
           -De quem o senhor está falando?
           -De Tereza, a minha esposa. Ela era assim: terna e suave como você.
      Tênues, suas palavras emitiam seus sentimentos como se os fizessem emergir do longínquo mundo das coisas abstratas para uma órbita ao alcance de quem o ouvisse. Percebi que estava ali o principal personagem da minha estória de Natal. Quis saber mais da sua vida e da esposa que tanto amara.
           Disse-me que se chamava Alberto Franco, tinha 77 anos e há seis estava no asilo. Doente, percebeu que já não podia mais cuidar de si. Era advogado e da família de seis irmãos ele- o caçula teimoso- era o único que ainda vivia.
          Quando procurei saber da sua mulher, ele baixou a cabeça e, visivelmente emocionado, disse:
         - Essa é a parte triste da estória.
         -Conte-me, insisti.
         E ele contou. Atenta, eu observava aquele velhinho de fala pausada e melancólica lembrar que havia conhecido Tereza em uma festa de ano novo. Apaixonaram-se. Pobre, filho de uma professora primária e um alfaiate, ele nunca foi aceito por sua família. Filha de um rico comerciante da cidade, ela concordou em ir embora, fugir, tão logo ele terminasse o curso de Direito que conseguia pagar dando aulas à noite.
            Parou e como se fosse tomado por uma saudade que lhe doía e precisasse falar, por que as palavras lhe anestesiariam a dor, fixou-me com os seus olhos infinitamente azuis, e disse:
           -Ela era tão jovem, tão bonita!... Amava-me com a suavidade de um ser que não pertence a esse mundo. Sempre que falava, era um anjo que eu ouvia, era o céu que eu estava alcançando. Eu desejava que a vida fosse eterna, para que eterno fosse nosso amor.
              Quando terminou havia lágrimas em seus olhos. Eu também estava emocionada, mas voltei à minha condição de repórter e perguntei do que a esposa havia morrido. Soube, então, que foi num acidente, em alto mar. O barco naufragou e apenas ele conseguiu se salvar. O corpo da mulher só foi encontrado dois dias depois. Tinham apenas três anos de casados. Ela estava grávida.
         Novamente ele parou. Num murmúrio, como numa prece, lamentou:
       -Tereza, a minha morte tem sido lenta, a conta-gotas. Eu morro todos os dias sem você e vivo graças a você. Eu sobrevivo da tua imagem, esperando-me na janela nos finais de tarde. Mas o dia demora passar e a janela está tão distante...
          Naquele final de manhã, quando vi que já tinha um bom material, encerrei a entrevista com seu Alberto. Agradeci, e quando me despedi com um beijo em seus cabelos brancos, ele me fez prometer que voltaria para visitá-lo. ”Você lembra-me tanto ela”, disse. Eu estava perturbada. Nunca ouvira alguém falar daquela forma de outro que já havia morrido há tanto tempo. De qualquer modo sentia-me ligada aquele velhinho.
          Duas semanas depois quando voltei a vê-lo, numa tarde de domingo, eu o encontrei bastante debilitado. Explicaram-me que sua insuficiência cardíaca havia piorado bastante. Ele falava de forma ainda mais pausada, buscando fôlego a cada palavra que balbuciava, como um cansado náufrago do lento passar do tempo. Mostrou, porém, grande alegria ao ver-me. Como sempre sua conversa foi sobre a inesquecível Tereza.         
          O senhor nunca quis casar novamente?- perguntei.
    -Como poderia? Nunca consegui amar a mais ninguém. Eu a vejo em todas as mulheres, em todos os altares: na mãe que, andando como uma pata, carrega pesada seu filho na barriga; na jovem freira que limpa-me as unhas e escova-me os dentes, e na imagem de olhar lânguido sobre o altar.
        Os dias passavam e seu Alberto piorava ainda mais. A voz era quase inaudível agora, e apenas um nome saía-lhe com clareza, como uma luz a iluminar a escuridão: Tereza. Ela preenchia os seus olhos, de um azul já sem brilho e sempre fixos em um ponto qualquer; estava nos seus braços que se erguiam de vez em quando como para abraçar alguém. Parecia não está mais na sua saudade, nem fazer parte de um tempo passado, porque agora era presente.
      Nas minhas últimas visitas a seu Alberto, eu era tomada pela sensação de que não estava visitando apenas ele, mas também Tereza, invisível, mas sentida nos gestos e palavras daquele velhinho.
         Eu me apegara a ele e começava a sofrer. Não tinha como disfarçar minha dor com seu sofrimento tão prolongado. Desejava intimamente que tudo aquilo terminasse logo. Um dia ele segurou a minha mão, e eu senti que queria falar-me. Inclinei-me sobre a cama, encostei o rosto bem próximo ao seu ouvido e o escutei dizer, como um alento para mim: “Está próximo. Está muito próximo”.
       Na semana seguinte, na minha visita dominical, fui surpreendida com sua atitude que a princípio, chateou-me, depois procurei entender. Após acenar que me entregassem dois pacotes, um de livros e outro de fotografia, pediu-me que não voltasse mais a vê-lo. “Não quero que veja. Não quero que sofra”, disse.
       Entre os livros estava um exemplar de O Morro dos Ventos Uivantes com uma dedicatória: “À minha querida Tereza. Com amor eterno. Alberto.” As fotografias mostravam um jovem casal, passeando numa praia, espichado numa rede, na varanda, deitados sobre a grama de um parque.
       Naquela tarde, com um nó na garganta, despedi-me de seu Alberto, e nunca mais voltei a vê-lo. Não sei quanto tempo ainda viveu aquele velhinho, cuja obstinação me fez acreditar num amor que sobrevive ao frio mármore das lápides, ao intransponível esconderijo dos cemitérios.



Monólogo de um moribundo
Ana Trajano

A campainha toca insistentemente uma, duas, três vezes... Aquieto-me no sofá, para que nem minha respiração seja percebida, e maldigo a quem poderia ter me descoberto, naquele apartamento alugado, em nome de terceiros, cuidado tomado por mim para que não fosse encontrado. Quem, afinal, poderia, àquela hora, estar me incomodando, tirando-me do meu desassossego, do campo de batalha que sou eu mesmo, eu lutando com meus eus?

São três em mim, cheguei a essa conclusão. E como é dispersa, fragmentada minha trindade! Não sei o que é paz! E nem poderia saber, pois sou a imagem do caos, da desordem. Talvez um dia, se juntar meus fragmentos, harmonizar-me, eu conheça a paz. Mas quando isso acontecerá? Talvez nunca! E tão pouco tempo me resta!... Dois meses, segundo o veredicto médico! O que fazer? Como aproveitar? Decidi não fazer e não aproveitar. Fechei-me pra balanço. Ver meu saldo, se é que existe algum, e analisar meus débitos.

Ah, minha trindade!...Há em mim uma pessoa que pensa, há em mim outra que fala, e há em mim a terceira, aquela que realiza. Nunca conheci coerência entre estas três criaturas. A que pensa não é a mesma que fala e a que age nunca está de acordo com as duas primeiras. Eis a minha guerra, eis o meu caos, eis o motivo do meu juízo. Todos os meus fracassos devem-se a essa incoerência, a essa divisão.

Sou um mentiroso, um hipócrita. A vida me fez assim! Não! Porque culpar a vida? Nós somos o que escolhemos ser. A minha ânsia por sucesso e o medo do fracasso transformaram-me num oportunista, sempre agindo segundo critérios que me favorecessem. Não importava a quem ofender, que meios usar. Sempre usando de belas palavras na hora das promessas vãs. Para isso não precisei de cursos de oratória, sou mestre na arte de persuadir, enganar.

Enquanto prometia, meu pensamento voava, ia longe, imaginando o que realmente iria fazer, realizar, e que nunca estava de acordo com as minhas palavras. Foi assim com a profissão que escolhi, a de manipulador das massas. Foi assim com a minha família. Fui infiel à minha mulher, aos meus filhos, vi meu lar destruído depois que os meus já haviam cansado de me estender a mão.

O homem de sucesso que sou é, na verdade, um fracassado. Nunca me senti tão pobre, tão miserável. Sou um mendigo, com os bolsos cheios de dinheiro e a alma em trapos, faminta. Onde buscar o alimento que ela tanto pede, o agasalho que lhe falta nessa tempestade de mim? Pedindo perdão àqueles de quem roubei a esperança? Ou pedindo perdão a mim? Descobri que é mais fácil perdoar aos outros do que perdoar a si. Há dias sentei no banco dos réus, no qual eu também sou o juiz, o júri, o promotor e o advogado de defesa. Ínfima, quase inaudível, é a voz do que há em mim e me defende, enquanto forte é o brado daquele que me acusa, fios de navalha são suas palavras em minha alma.

Hoje sei o que é o juízo final. Eu estou vivendo o meu. É o acerto de contas último, derradeiro com a consciência. Sim! A consciência é o nosso juiz, e quão severo é ele! Não dizem que no juízo final todos os mortos se levantarão? É verdade! Eu sei, pois vejo todos aqueles a quem fiz mal, com quem fui injusto, que explorei, que tratei com escárnio, levantarem-se dentro de mim, dedos em riste, avançando como um batalhão de choque, protegidos por seus escudos, e eu sem nenhuma proteção. Ai de mim!

Droga! Essa campainha que não para!... Dim-dom, dim-dom, dim-dom...Não! Não vou! Não vou atender! Seja quem for, deixe-me morrer em paz. É só isso que quero: morrer em paz! Ou melhor, morrer em guerra, na guerra contra mim. Guerra santa. Guerra redentora. O que de mim sobreviver, será herói de si mesmo, sobrevivente de si próprio. Nem que seja por alguns segundos, quero conhecer o vencedor. Eu vencedor de mim. Só então experimentarei a paz.

Ó morte, não me levas sem antes conhecer a face, a força, a alma do meu vencedor. Nem que seja por alguns segundos, apenas. Depois toma-me em teus braços, entrego-me a ti, pois de ti estou carente, como da morfina que me falta, que eu a recuso: quanto maior é a dor, mais próximo de ti ela me deixa e eu a suporto, e eu a quero, pois além da dor enxergo um regaço e ele se chama paz...




ALÉM DO REFLEXO
Ana Trajano


Estou pelado! Disse “pelado!” Hoje decidi desnudar-me! “Desetiquetar-me!” Sei! Essa palavra não existe! Acabei de forma-la! São tantos os termos novos que surgem todos os dias, que decidi formar os meus para traduzir-me. Quem sabe, um dia, deixarei por lembrança do que fui o “Dicionário de Tradução do Osório”! Osório sou eu. E esse dicionário terá de ser gordo em páginas para traduzir-me, pois fui homem plural, multi. Mas pergunto: quem não é? Quem não foi? Somos tantos!... Obrigam-nos a ser tantos!...

Preenchem-nos o tédio da existência vazia multiplicando-nos os eus. Assim somos reinventados, plasmados, todos os dias. Multiplico-me (ou subtraio-me?) para preencher esse vazio, esse buraco, essa ausência de mim, e ausente de mim permito-me consumir. Sim! Permito-me consumir, por um monstro faminto, voraz que sou eu mesmo. Melhor dizendo, que me iludem, fazendo crer que eu sou ele. Mas não sou! Agora sei, não sou! Descobri que não sou!


Diante do espelho deixei cair a máscara. Foi difícil. Foi duro. Se as lutas já são difíceis, imagina lutar consigo mesmo!... Mas não disse alguém que a guerra é mãe de todas as coisas? Hoje vi quanta verdade há nisto que julgava absurdo, delírio de filósofo para explicar seu próprio caos. Hoje sei que das entranhas da guerra, ou do caos, estou renascendo, buscando em mim a unidade que existe. Acabar com o multi, com o plural.


Mas como ia dizendo foi diante do espelho que deixei cair a ilusão. Havia acabado de sair do banho, estava nu, e, coberto por minhas vaidades, pus-me a enxergar de frente, de perfil, de costas. A barriga havia crescido, uma ruga nova tinha aparecido, constatei com desalento. “É, Osório, são 40 anos!...”, disse a mim mesmo, lembrando que estava exagerando nos fast-foods e era bom tomar cuidado. Já fui gordo e sei o trabalho que deu para emagrecer.


Como disse, somos modelados, reinventados todos os dias. Hoje eu sei. Há a indústria de engordar e a indústria de emagrecer, as que nos tornam mais velhos e doentes, e as que nos deixam mais jovens e saudáveis. E assim, entre um apelo e outro, nos permitimos plasmar. Mas diante de minha imagem pareceu-me ouvir alguém que sufocado, oprimido, pedia-me: “Vê além do espelho, vê além do reflexo!”


Tomei coragem, aproximei-me e fitei meu próprio olhar. Só por um instante. Não suportei por muito tempo. Sim! Havia outro! Outro que se envergonhava de mim! Ou era eu que me envergonhava dele? Ou era eu que me envergonhava de mim próprio? Experiência estranha! Baixei os olhos. Quando os levantei, e voltei a fitar-me, o outro implorava: “Não tenhas medo! É você! Se você continuar, vendo além do reflexo, a máscara cairá!”

Permiti-me olhar bem dentro dos olhos, enquanto dois seres, dois eus, digladiavam-se dentro de mim. Um pedia: “Continua olhando!” O outro ordenava: “Baixa a visão!” Ah, como era doce, convincente e tão eu a voz do que pedia “continua olhando!..” Cedi a ele, cedi a mim, enquanto sentia o outro ir se apagando como tinta de um mataborrão. Pelado, desnudo do meu ego, sentia-me como se inúmeros papéis tivessem sido me dado representar, e representando-os deixasse neles se diluir o meu verdadeiro eu, aquele cuja matéria não se permite modelar.

Agora estava de posse dele novamente. Era outro homem, ou o verdadeiro homem, aquele que se enxerga além do que parece ser, que está além das aparências, além do mundo. Flutuando dentro de si. E assim, substância flutuante, na velocidade da luz não se permite agarrar, escravizar, plasmar....




BRANQUINHA EM QUEDA LIVRE PARA O CÉU

Ana Trajano

A neblina densa que vinha todos os anos com os ventos de agosto cobria a face da noite. Do alto do seu abrigo, na caixa de ar condicionado de um apartamento, no décimo andar, Branquinha esperava o dia amanhecer. Fisgadas no coração, que batia acelerado no peitinho proeminente, e a estranha sensação de que algo estaria para acontecer, haviam lhe incomodado durante toda a noite. Seria doença? Primeira coisa a fazer, como de costume, seria consultar “Paizinho”, forma carinhosa com a qual dirigia-se a Deus, ou o Senhor da Criação. Ele nunca deixou de responder às suas indagações. Tinha com “Paizinho” uma comunicação telepática, intuitiva. Ela o ouvia, bem dentro do seu coração. Sim! Ela o ouvia! E a sua voz era suave como a brisa que soprava naquele instante, vinda do oceano, anunciando o alvorecer.

Quando os primeiros raios de sol surgiram, e pareciam refletores de intensa luz dourada sobre as águas daquele pedaço do Atlântico, Branquinha lançou-se em voo rasante em direção à praia. Com sua plumagem branca, brilhando ao sol, juntou-se às outras dezenas de pombos que, na areia, disputavam espaço com as marias-farinha, naquele início de manhã de maré baixa.

Era domingo, Branquinha sabia. Pois aos domingos os comerciantes chegam cedo para armar barracas, guarda-sóis, distribuir cadeiras e, mais tarde disputar clientes, entre os banhistas. Naquele dia da semana as velhinhas não aparecem para as aulas de hidroginástica. Que falta elas fazem! Sempre cantarolando no mar alguma canção antiga, como se, velhas sereias, vivessem a encantar o tempo que se esvai no intenso galope dos segundos.

O relógio do calçadão marcava 6h30 quando um grupo de cinco ou seis pessoas chegou à praia e, perspicaz como serpente, dirigiu-se aos pombos. Jogaram-lhes milho em abundância. Eles, entretidos e famintos, bicavam os grãos. Branquinha ouviu bem quando um rapaz magro, de voz forte, aproveitando-se da sua distração, gritou:

-Peguem um branco! Só serve um branco!

O grupo atirou-se sobre as aves. Para Branquinha faltou tempo de seguir em revoada com seus amigos e buscar proteção nos fios da rede elétrica, ou no alto dos edifícios, ou em alguma antena de TV. Sentiu apenas a ação rápida de quem lhe pegava pela asa direita, e, em seguida, o estalo de osso quebrando. Depois dor. Muita dor. Dor na asa. Dor na alma. Dor de quem sofre a violência. Dor de quem não sabe por que a está sofrendo. Dor de quem, inocentemente, desconhecia sua presença na alma humana.

Em seguida, Branquinha foi colocada em uma gaiola. Seus algozes pareciam alegres, felizes e, entre si, falavam de uma manifestação. Sim, de uma manifestação pela paz! Ela seria usada para simbolizar a paz quando, retirada da gaiola, lançasse voo das mãos de alguém. Como assim? Como era possível? Era hora de falar com “Paizinho”. Ele teria alguma explicação, ou simplesmente uma palavra de alento.

Encolhida, num cantinho da gaiola, deixou que seu coração falasse. “Paizinho, sempre acreditei em ti, e no homem feito à tua imagem e semelhança. E qual não é minha decepção agora ao defrontar-me com tanta incoerência por parte de quem sendo filho de Deus, Deus também é. E, tenho certeza, não são incoerentes as tuas leis, nem o teu pensamento, nem as tuas ações. Da incoerência dos homens, porém, estou sendo vítima. Dizei-me, Paizinho, como pode uma manifestação pela paz começar com um ato de violência?”

Nenhuma resposta lhe foi dada. Quando a passeata terminou, o rapaz magro, de voz forte, pegou Branquinha. Do alto do carro de som abriu-lhe as mãos, mas ela não voou. Um fio de sangue escorria da asa quebrada. Ele, impiedosamente, lançou-a no ar e, enquanto rolava em queda livre, do seu corpinho caiam gotas de sangue que, no asfalto, como numa mágica, formaram uma palavra: “PAZ”.