Crônicas


O RIO E O TEMPO
Ana Trajano

"Só faça o que sentir vontade! A vida é curta demais para que atrapalhemos seu curso!"
Eu havia acabado de acordar e isto chegou à minha mente, como um desses insights que temos às vezes e que mais nos parecem o cochicho de alguém.
Eu estava para tomar uma decisão - mais impulsionada por outra pessoa do que por mim -, e apesar de minha intuição pedir que não cedesse, eu estava prestes a fazê-lo. A verdade é que, ao longo da minha vida, fiz mais a vontade dos outros do que a minha. E agora aquele alerta.
Percebi que o tal insight era simplesmente o despertar da minha consciência que clamava insistente:
"Por favor, perceba! Todas as vezes que você faz o desejo dos outros e não o seu, está atrapalhando o curso de sua vida, pois somente os seus próprios anseios representam o fluir normal dela. Os dos outros, direcionados a você, nada mais são que obstáculos que dificultam sua caminhada rumo ao destino que é você mesmo.
Compare a vida a um rio que serpenteia tranquilamente para o mar, até que alguém decide construir uma barragem no seu meio, e ele chega esfacelado ao oceano, apenas pela metade, ou menos que isso. O desejo do outro fez bem a ele, mas foi péssimo para o rio. Assim também é com você. Não permita que represem sua vida e você chegue reduzida ao seu destino, pois o passar das horas não permite conserto, não tem ré, é sem retorno. Tudo é avante, em frente, já que o tempo é a pressa da eternidade. A pressa de chegar a ausência de si mesmo. Ele - o tempo-
só existe fora da eternidade; dentro dela ele é ausente, como são ausentes ponteiros no sol. Mas os homens insistem em construir relógios solares, e acreditar nas horas que eles marcam.
Sabe aquela máxima de Heráclito, segundo quem ninguém entra no mesmo rio duas vezes? Pois é! O tempo é esse rio a correr impiedoso. Ninguém vive o mesmo instante duas vezes, e o instante é a única realidade palpável. Num instante, já é passado e não volta mais. Lembre-se que o rio desce a montanha, mas não a sobe. Cada um de nós é um rio de luz a caminhar de volta à fonte, mas numa estrada, à noite, alguém precisa baixar o farol para não atrapalhar a visibilidade do caminho do outro. Dê sinal para baixar a luz a quem está impondo a sua muito fortemente, 
pois ela apenas lhe ofusca e o seu percurso pode não ser visto."




MEU CAULE DE LUZ
Ana Trajano

Faz um ano que você partiu!  Desde então a vida, para mim, compara-se a uma árvore, cujo tronco foi cortado, porém os galhos permanecem suspensos, como uma mágica - recurso último do universo para os seres que ficam sem suas raízes. É assim que me sinto: suspensa, sem o caule que me prendia à terra.
             A vida, sem você, transformou-se num monótono flutuar, entre as estrelas- responsáveis pelos elementos para a formação do teu corpo físico- e a terra onde ele, tranquilo, repousa. Não me falta chão; faltam raízes, e sem elas flutuo. Assim estou: num caminho aéreo entre dois mundos, deixando rastros no ar, como folhas de outono, que também perderam seu tronco, seus galhos, e soltas buscam pernas no vento.
            Deus, porém, não é mágico, papai.  Ele não faz ilusionismo; constrói realidades, indiscutíveis realidades. A sua sabedoria está além de todo nosso pretenso saber, de nossas rasas filosofias. Assim sendo, Ele permite que os galhos que ficam sem seus caules, sirvam de caules para outros galhos, e do amor que têm por estes continuem vivendo. Afinal, a árvore da vida  precisa ser podada, mas jamais morrerá.
            Deus me deu dois galhos, papai, –duas filhas lindas – por quem eu peço - na apressada maratona dos ponteiros - que Ele prolongue meus dias de caule, para que elas não venham tão cedo experimentar a sensação de flutuar.

            A vida, porém, meu pai, está além da terra e além das estrelas. Ela está na fonte de energia divina que faz a semente de uva brotar do seio da terra - onde tudo é escuridão - e virar parreira à luz do sol. Assim também é com todos nós: precisamos ser “plantados”, passarmos pela tenebrosidade da morte – como a sementinha que  apodrece embaixo do chão, antes de nascer– para ressurgirmos à luz de Deus. Plantado, você agora é meu caule de luz no céu– talvez daí eu me sentir tão aérea....




O APOCALIPSE NOSSO DE CADA DIA
Ana Trajano

Estamos vivendo o apocalipse, muitos dizem. E estamos mesmo, cada um vivendo o seu individualmente. O apocalipse é uma desadaptação da natureza a perversidade humana, um fartar-se do bem com mau, um desgosto do Criador com a criatura. O apocalipse é a revolução invisível dos querubins. É a guerra final para o final das guerras. Vivemos o nosso quando não nos adaptamos mais às coisas do mundo, quando o anjo que temos não aceita mais conviver com o diabinho que também há em nós, não restando alternativa para ambos, a não ser a luta final, última, decisiva.
            Eu já nasci apocalíptica. Vivo em guerra constante, comigo e com o mundo, tentando fazer as pazes entre o diabo e o anjo, esquecida de que não se serve a dois senhores. Quando um dá a mão, o outro abaixa a dele, e meu coração é ringue sem tatame. Quem cair sente forte. Portanto, ninguém quer ir ao chão. Mas prefiro - e vou preferir sempre - o anjo. Ele me faz sentir saudade do paraíso, o único lugar decente, bom de morar que existe. Lá, não se serve a dois senhores e não corremos o risco de, numa dessas, brigas, sobrar apenas o precipício debaixo dos nossos pés. (Essa possibilidade faz o anjo que  há em mim segurar firme o escudo da fé para dar umas rasteiras, todos os dias, no diabinho que também abrigo.  E ele tem apanhado um bocado!... Ah se tem!...)
            Decidi: quero de volta o paraíso, não sinto vergonha de dizer! A paz está lá e eu a sinto: nem branca, nem preta, mas incolor, de braços estendidos me chamando. O paraíso é minha pátria! Nem mesmo sei por que imigrei!...Talvez meu espírito aventureiro, no desejo de conhecer outros mundos, tenha ido longe demais, e chegou aonde não devia – ou aonde devia para conhecer as consequências da ambição desmedida.
            No paraíso não vou me sentir um peixe fora d’água, como sempre me senti aqui. Nunca me adaptei ao mundo! Ou foi o mundo que nunca se adaptou a mim? Sei lá! As duas coisas, talvez. Fato é que nunca consegui conviver bem com os sistemas do mundo. O de trocas, então!...  Tenho sérios problemas com o dinheiro, apesar de estarmos sempre discutindo a relação, mas não há jeito. Quando o tenho, abro de mais a mão e lhe dou a liberdade que é proibida; quando não o tenho desejo-o como a um amante a quem se promete tudo - até fidelidade - para não deixá-lo escapar.

            No paraíso não há nada disso: nem violência, nem injustiças, nem corrupção. No paraíso não há preconceito, nem discriminação, nem divisão por classes; nem edifícios há, para que não fiquem uns sobre os outros – e os do apartamento de cima não se sintam superiores aos de baixo, porque  o seu custou mais caro. No paraíso não existe pirâmide social. Ótimo, pois detesto escada, e a deste mundo já me deu artrite!  Lá não existem necessidades - nem de roupa, pois não faz calor nem frio. O clima é ameno e a vida é mansa. A comida é boa – só manjar de Deus – e a música de qualidade: harpas, flautas, violinos...Tudo 0800, oferecido pelo Criador para os anjos que venceram seu apocalipse, que sobrepujaram o diabinho. Força, meu anjinho! Você chega lá!





         A VIDA COMO BODE EXPIATÓRIO

         Ana Trajano

Dante e Virgílio no Inferno,
 obra de William-Adolphe Boguereau (Wikipedia)
É próprio do ser humano jogar a culpa de responsabilidades que são suas- geralmente  de suas más atitudes- em algo ou alguém. Atire a primeira pedra quem, no seu dia-a-dia, nunca fez isso, desde aquela discussão com o outro no trânsito, aos problemas familiares, rotineiros.  Se uma coisa deu errada, ou não saiu como queríamos, é difícil admitirmos que a culpa seja exclusivamente nossa, e lá estamos nós a empurrá-la sobre o outro. Ter um bode expiatório, para muitos, parece tão necessário quanto um par de muletas para segurar suas deficiências.
 O bode expiatório é o saco de pancadas da covardia. Em qualquer setor da vida em sociedade encontramos exemplos diários, corriqueiros dessa infeliz realidade.  O político, por exemplo,  é terreno fértil para a utilização do bode expiatório. Basta pegarmos um jornal, ou revista, e sentiremos o peso da hipocrisia, da mentira, nas páginas recheadas de culpas e defesas.
E quando nosso bode expiatório é a própria vida? Sim! Este é o nosso bode expiatório de maior estatura!  Se olharmos ao nosso redor não é difícil encontrar alguém a culpá-la por suas dores, frustrações, erros, tendências.
         É o bode expiatório perfeito. Em silêncio acolhe as nossas culpas. Não reclama defesas, não exige reparação, nem sequer pede clemência quando, inocente, acata nossos piores desatinos. Talvez a necessidade de tê-la como bode expiatório, leva-nos a uma relação de quase inimizade com  ela, a tratá-la como se fosse algo exterior a nós, um ser ou uma coisa à parte. A todo instante lá estamos nós carregando-a de culpa. Querem um exemplo? Uma das nossas frases mais repetidas diante dos obstáculos, das intempéries, é: “É a vida!” O emprego não deu certo? “É a vida!” O salário não dá para cobrir as contas? “É a vida!” O casamento acabou? “É a vida!” A doença bateu à porta? “É a vida!”
         Assim, sem perceber, emprestamos à vida aquele rosto de ingrata, de megera, de madrasta malvada sempre pronta a atrapalhar nossos planos, a transformar em pesadelo os nossos fantásticos sonhos. E a vida passa de bênção para castigo. Ela, porém, não é um castigo; nós nos castigamos- e somos castigados- nela.
         A vida não toma decisões por nós; nós tomamos decisões nela. Ela é apenas o palco; o espetáculo somos nós que fazemos. Somos autores, atores e diretores de nossa própria peça. A única função do palco é acolher como  espaço. Somos atores tão despreparados que, perdidos em nosso drama, nos confundimos com o palco. E, assim confundidos, só nos resta a catarse de oferecer à vida o papel de bode expiatório.





    BOÉCIO: UMA LUZ NA IDADE MEDIA
         Ana Trajano

A Consolação da Filosfia, de Mattia Preti
         Que adjetivos usar para definir um homem que dominava não somente o conhecimento livresco, mundano, passeando com maestria por todas as ciências, mas tinha o domínio, sobretudo, do conhecimento de si mesmo? Aquele que, quando adquirimos, deixamos de fazer as infantis perguntas: “Quem sou?” “Qual é o meu destino?”
         Talvez os mais nobres adjetivos sejam poucos para qualificá-lo. Afinal, Boécio é Boécio. Não precisa dizer mais. Define-se por si mesmo. Só precisamos ler, entendê-lo e mergulhar no oceano de sabedoria com o qual presenteou a humanidade.
         Apesar de ter morrido muito cedo, com aproximadamente 44 anos (alguns autores divergem quanto ao ano do seu nascimento), sua curta vida eternizou-se para além das fronteiras do tempo, disseminando-se nas páginas da história, como só acontece com as grandes almas. Digo grande alma porque os grandes homens ficam conhecidos por seus grandes feitos, mas grandes almas tornam-se inesquecíveis por transcenderem a eles.
         E que grande alma Boécio foi! Um iluminado a iluminar seu tempo. Se houve uma idade das trevas, essa, com certeza, foi anterior a Anício Mânlio Torquato Severino Boécio, pois a Idade Média, depois dele, brilhou com seu saber. Não esqueçamos, porém, os méritos de Agostinho, cujos restos mortais repousam junto aos seus na Igreja de San Pietro in Cielo D’Oro, em Pávia.
         Transformado em beato, sobre ele, Dante, que o colocou no Paraíso, no Céu do Sol, escreveu: “A visão de todo bem extasia esta alma santa que mostra, a quem sabe bem compreender, que o mundo é enganoso. O corpo, do qual ela foi expulsa, jaz sob a terra em Cielo D’Oro, e ele, de martírio e de exílio, alcançou esta paz.”
         O que dizer, afinal, de um homem para quem o amor é o princípio que tudo rege, e todo o Universo é permeado por ele? Talvez possamos dizer que, como filósofo, ele via o óbvio, onde muitos, infelizmente, nada veem. E acrescentar que era magnífico, como magnífico são estes versos:

         “O amor governa o mar, a terra
e o céu. Mas é soltar lhe soltar de leve
as rédeas para que todas as coisas
que até então se amavam umas às outras
fiquem em guerra e destruam a si mesmas.
Felizes aqueles que dentro da própria
Alma possuem o mesmo amor
que rege a terra, o céu e o mar.”

Em a “Consolação  da Filosofia”, livro que escreveu na prisão, entre sessões de tortura, à espera de que se concretizasse a sentença de morte a que fora condenado, ele imagina um diálogo com a dama Sabedoria, e esta lhe pergunta: “Tu te lembras de que és um homem?” “Como, disse eu, haveria de não lembrar?” “Então, replicou ela, o que é afinal um homem? Poderia me explicar?” “Tu me perguntas se sou um animal racional e mortal? Sim, eu o sei, e é isso que digo que sou.” E ela me perguntou: “Não sabes que és mais alguma coisa?” “Não, respondi.” Disse então ela: “Agora reconheço uma outra causa da tua doença, bem como a maneira de te curar. De fato, é devido ao esquecimento que estás perdido, que te lamentas de ter sido exilado e privado dos teus bens. É porque desconheces qual é a finalidade do Universo que tu imaginas serem felizes e poderosos os que te acusaram.”
Concluindo, o que Boécio escreveu, 15 séculos atrás, continua muito atual, e continuará sempre, pois a humanidade parece cega para o mundo de ilusão no qual vive. O esquecimento daquilo que somos é a causa de todo sofrimento humano. Quando esquecemos o que somos, e nos identificamos apenas com o corpo, deixamos de investir na alma e investimos apenas na matéria, ou seja, em algo perecível, e perecemos com ela.
Mas, afinal, qual é a finalidade do Universo? Eu acho que cada um de nós tem uma resposta a esta indagação. Eu diria que é o amor. O amor que, como afirma Boécio em seu poema, rege o céu, a terra e o mar. Através dele, e por ele, tudo foi formado. O amor não egoísta. O amor que é todo poder, mas que se identifica apenas com a humildade, com o bem. A meu ver a queda do homem, a que se referem os textos bíblicos, refere-se exatamente a isso: a desidentificação do homem com esse  Amor, que é o TODO, o UNO, e sua identificação apenas consigo mesmo, com o ego.                    



SA(L)DADE!
Ana Trajano
                                                                                

Foto: Eduarda Trajano
“Saudade- sentimento nostálgico ligado à memória de alguém ou algo ausente.” (Dicionário Houaiss) Pois é, fui buscar definição para isto que há um mês arde como chamas no meu peito. Mas não encontrei nada que defina o que estou sentindo, tão vagas são as definições linguísticas para o termo. Será falta de palavras que abarquem a saudade, ou ela só é traduzível apenas por quem a sente, pelo sal das lágrimas que minam das impossibilidades dos reencontros?
         Começo a acreditar categoricamente nesta hipótese e, assim sendo, nenhum dicionário caberia suas descrições, pois existe uma para cada ser humano. Cada um sente saudade de uma forma, e ela está muito além de ser simplesmente essa nostalgia a quem os dicionários, tão simplificadamente, a prendem.
         O que ela é para mim, então? Vou deixar que fale o meu coração, pois só ele é capaz de traduzi-la. Saudade é a dor com a partida do outro, mas é também a beleza do ADEUS, pois ambas, dor e beleza, se misturam como matéria-prima de um único sentimento: a saudade. Doloroso é ver o outro partir, mas belo é entrega-lo aos cuidados de Deus: adeus! A Deus!
         Saudade são reflexos do passado em espelhos do presente. É o nosso parto ao desapego, e tão grande é sua dor! Saudade é a distância em sua forma instransponível. É a cerca de arame farpado entre dois mundos. É o cartão postal no fundo do baú, guardando em letras miúdas a clausura do pretérito. Saudade é a foto amarelada brigando com nódoas do tempo.
         Saudade tem o tempero da dor,  no debulhar-se em lágrimas. É sal em exagero agredindo o sabor da vida. Saudade resseca os lábios e desidrata a alma. Saudade é amor em  estado líquido, descendo em enxurrada. Saudade desabriga como tempestade e, desabrigados, somamos à do outro a saudade que sentimos de nós. E, no final, não sabemos de quem sentimos mais saudade: se daquele que tanto amávamos e partiu, ou da nossa parte que se foi com ele...



   A crônica alegria dos bem-te-vis                           

                                                                                Ana Trajano



Foto: Eduarda Trajano
                    Você já se imaginou acordar todas as manhãs com um minúsculo ser coberto de penas que, sobre a copa de uma mangueira, ou nas antenas de TV, exalta a vida, a alegria de te ver na janela, olhando para o mar, com o sol nascente a se espreguiçar sobre as ondas? Eu tenho esse privilégio e te de digo: é doce como a música de Mozart, como um violino bem afinado a materializar, angelicalmente, uma composição de Bach.
                    Bem-te-vi, bem-te-vi, bem-te-vi... Repete essa graciosa e bem humorada ave, e é impossível alguém ficar indiferente a eloquência de sua exclamação: Bem-te-vi!!! A Olinda que acorda mansa, tranqüila, e vai para a praia caminhar, a procura, inquieta, curiosa, em êxtase. Às vezes, com muita sorte, consegue vê-la, lá em cima, pequenininha, no alto de um prédio, equilibrando-se nas bordas da antena.
                    No seu canto, eu sinto a paixão, o seu amor por todas as criaturas. O branco e o preto, o rico e o pobre, o feio e o bonito. A todos, ela diz que “vê bem”. Bem-te-vi! Eu sinto a sua gratidão pelo sol que nasce, o dia que amanhece, o mar que se agita, a cidade que acorda.
                    No seu canto, eu sinto Deus, dizendo em alto e bom som que nos ama, que, com seu olhar de infinita bondade, nos vê bem. Bem-te-vi! Tão próximo, tocando-me tão profundamente o coração, e às vezes tão distante, invisível, escondido entre as folhagens da mangueira.
                      Olinda não é uma cidade tão arborizada, mas aqui estão esses Bem-te-vis. Às vezes são mais vistos no alto dos prédios, do que nas poucas árvores que ainda existem, cujas profundas raízes permanecem imunes, não sofreram a violência do bate-estaca na construção de mais um edifício. Por quanto tempo?
                     Daí, eu deduzo que essa é uma ave muito sábia, entende as nossas carências. Carência de algo que humanize a cidade, que nos humanize também. Que, por instantes, nos faça esquecer os sons da violência – as sirenes da ambulância, do carro de Polícia, do resgate dos Bombeiros. Que, por instantes, nos dê a sensação de sermos transportados a um amplo auditório onde está sendo executada uma belíssima sonata.
                     Ela parece entender a carência que sentimos de algo que nos faça olhar com bons olhos para dentro de nós mesmos; que, com bons olhos, também enxerguemos as pessoas e as coisas à nossa volta. Bem-te-vi! Que faça com que não exijamos tanto de nós próprios, nem daqueles que nos cercam.
                     Que nos lembre de não exigir tanto da vida. Viver já é tão bonito! E simples como dizer bem-te-vi. Palavra pequena, mas que ecoa com uma sonoridade tão intensa. E carrega na sua tripla construção o poder psicológico de um espelho mágico, através do qual podemos enxergar o mundo. E a todos vermos sempre bem. Bem-te-vi!                      
                       Se assim procedêssemos, nos livraríamos, certamente, do ódio, do rancor, do preconceito, da discriminação. E de tantos outros sentimentos negativos que nos sobrecarregam a alma, nos colocam num patamar de pretensa superioridade, sobre o qual enxergamos o outro de modo diferente, com um “mal-te-vi”. 



2012: O APOCALIPSE QUE EU FAREI
Ana Trajano

Shiva: na trimurti  hindu o deus transformador
Eu decidi que o mundo vai acabar mesmo em 2012. Esse mundo de podres poderes, velhos paradigmas que não me cabem mais, valores nos quais não enxergo nenhum valor, sistemas que têm na injustiça suas vigas de proteção; esse mundo no qual a ilusão é doce e amarga, o amor escasso, a paz pisoteada na dor e sofrimento dos mais fracos para benefício dos mais fortes; esse mundo de respiração ofegante e corpo dilacerado com as maldades que lhe infligimos; esse mundo que criaram para mim e que eu, por comodidade, aceitei, não o quero mais, vou explodi-lo dentro de mim. Vou ser seu tiro de misericórdia, seu incêndio renovador, seu terremoto avassalador, sua tsunami poderosa. Vou ser, enfim, seu apocalipse redentor.
Do âmago da minha trindade invocarei o deus transformador que ordenará: “Faça-se!” Faça-se uma nova consciência em mim! Faça-se em mim um novo mundo. Faça-se em mim a luz necessária e matéria-prima de toda boa realização. Faça-se em mim o poder criador de outra realidade. Estou cansada dessa que criei, e que criaram para mim. Arraste-me! Arraste-me para outra dimensão onde não serei escrava das horas, dos dias corridos, das noites longas, da insônia que pesa,  do cansaço da vida e de mim. Arraste-me de volta ao não tempo, ao não mundo, ao não eu. Estou farta de tantas gaiolas. Quero-me de volta na liberdade do não ser, ou do verdadeiro ser. É um direito sagrado reivindicar-me. É um direito sagrado dizer não a essa (ir) realidade.
Não aceito mais imposição, ordens criadas que apenas disseminam a desordem, dentro e fora de mim, no meu habitat. Este terá meu respeito, e ai de quem querer desrespeitá-lo, pois enfrentará a fúria de quem ama e perdoa, mas desperta a cólera necessária no momento oportuno. Meu habitat faz parte de mim, sou eu. E o mal que é feito a ele é a mim que está sendo feito. Serei sua vigilância, pois enquanto o vigio estarei vigiando também a mim, à saúde do meu corpo e da minha alma.
Este novo mundo que ordeno ao deus transformador que há em mim “faça-se”, terá um novo governo: o Amor, essa força mágica que tudo cria, tudo permeia, em tudo está. Ele não será mais ignorado nem por mim, nem por nenhum outro ser. Será cristalino como a água da mais pura fonte, e será a própria fonte de luz que acabará com o indício de qualquer treva. Ele será, enfim, amado e respeitado como a Divindade que é.


Carta para Clarice
Ana Trajano

Cara Clarice,

Não sei onde estás. Certamente compartilhando a paz das estrelas que reluzem e que eu, cá de baixo, fico a olhar, imaginando em qual delas te escondes, com qual delas te fundistes. Acho que foi com aquela que mais brilha, pois a tua luminosidade irradiava em toda "terra brasilis". Imagina ela - tua luz- fundida com a de uma estrela!...

É por isso que partiste, porque do alto brilhas com mais intensidade. E com mais intensidade, iluminas não só a nós, os da tua pátria, eternamente órfãos de ti; mas a todos nós que navegamos nessa nave-mãe chamada Terra, que tem o céu como teto e as estrelas como luminárias. Do alto, Clarice é mais Clarice, é mais mistério, é mais profunda e inatingível, tocando a todos com sua intangibilidade, assim como as estrelas que nos ofuscam e encantam, tão inacessíveis.

Tenho uma foto tua, recorte de jornal, que guardo como preciosidade. Nunca entendi teu olhar. É impossível ler, interpretá-lo. És uma obra de arte no olhar, um texto teu, uma Paixão Segundo GH. O mais profundo mistério está guardado nos teus olhos. Perco-me em divagações, tão abstratos são eles. 

Lembrei tanto de de ti esses dias!...É que se foi alguém da minha família. Foi também juntar-se  a uma das estrelas aí do alto. Era a minha sogra, para quem os anos já pesavam como fardo e a doença se impunha como tortura. O marido, ainda mais velho que ela, desde então a procura dentro de casa.

Já lhe disseram várias vezes que ela partiu, que não está mais aqui, mas ele, em sua senilidade, não quer aceitar. Ou quem sabe, num lampejo de lucidez, que está além do nosso entendimento, continua a procurá-la, como se ela tivesse se encantado, ou estivesse brincando de esconde-esconde, num plano tão sutil, mas tão próximo de nós, que basta apenas encontrar o portal, a passagem, e encontraremos também o outro, que está escondido, encantado, sumido. Como ele ainda não descobriu a passagem para esse lugar encantado, pede a todo instante para ir embora, argumentando que aquela não é sua casa, que esse não é seu mundo. Como se a esposa, ao partir, tivesse levado sua casa, seu mundo.

Talvez estejas pensando: "Que tenho eu a ver com isso? O que a fez lembrar de mim?" Foi uma frase que disseste quando, certa vez, pediram que definisses a morte. Lembra qual foi tua resposta? Eu vou aguçar-te a memória. "Uma definição da morte? O meu cachorro Ulisses me procurando por todo o apartamento." Foi essa tua resposta. Certamente o teu olhar de mistério vagando pela casa, ou fixo nos olhos de Ulisses. É este o recorte de jornal com teu olhar indecifrável que guardo até hoje.

Que frase magistral! Somente alguém como Clarice, que tem a palavra mistério como sinônimo de si própria, para definir tão bem o grande mistério que é a morte, esse encantamento que deixa os que ficam tão desencantados. Todos nós nos sentimos como teu Ulisses diante da morte, procurando esse portal, cuja chave parecemos procurar na dor, nas lágrimas, na saudade, na vontade de morrer....Somos tolos, míopes como teu cãozinho. Enxergamos tão pouco, apesar de ser tudo tão claro, tão Clarice....


Um comentário:

carlos alberto Beto disse...

Nossa minha querida amiga,suas crônicas são retratos fieis da vida, de nossos sentimentos e reflexões! Escreve com maestria e profundidade, e espero que escreva, mais e mais, para que tenhamos o prazer de ler suas sabias observações!Um grande abraço de luz!