Poesias

Risível cócega.


O que é a poesia? Para nós que gostamos e fazemos poesia, ela é mais que um meio de expressão, é algo que transcende o próprio ato e coloca-nos em uma esfera entre o sonho e o real, o delírio e a lucidez. É a dor, mas é também o bálsamo; é o pranto, mas é também a risível cócega.


Quem melhor a definiu, na minha opinião, foi o escritor e filósofo alemão, Friedrich von Handenberg (1772-1801), que adotou o pseudônimo de Novalis. Considerado um dos fundadores do romantismo, ele afirmava: "a poesia é a grande arte da construção da saúde transcendental. O poeta é, portanto, o médico transcendental. A poesia mescla tudo para o grande fim dos fins - a elevação do homem acima de si mesmo".


E advertia aos críticos: "Quem não é capaz de fazer um poema, também só o julgará negativamente. A genuína crítica requer a aptidão de produzir por si mesmo o produto a ser criticado. O gosto por si só julga apenas negativamente".


Quanta sensibilidade e que poder imenso de enxergar a verdade detinha esse homem que morreu com apenas 29 anos! O poeta se não é médico de todos, mas é o grande médico de si mesmo. Pois se é na alma onde encontram-se as maiores dores, as piores doenças, é da alma, para o poeta, que parte o remédio. Às vezes amargo, às vezes doce, mas sempre eficiente. Todo poema é uma catarse, um descobrir-se a si mesmo e ao mundo. A poesia torna transparente quem a produz.


Não há retrato melhor de alguém do que um poema que ela (ele) escreve. A poesia transcende a todas as outras formas de identificação do ser. O imaterial, ou espiritual, se sobrepõe ao físico, e este perde toda aquela importância que damos quando conhecemos alguém. As aparências, no caso da poesia, não enganam. Ela é esse raio x que nos mostra de dentro para fora.


Quando leio um poema de Federico Garcia Lorca, por exemplo, é a ele próprio que estou lendo, é a sua alma que está se apresentando a mim. E através de sua sensibilidade, do seu modo de ver o mundo, posso entender porque o regime de Franco o matou, considerando-o mais perigoso com a pena do que os outros com seus revólveres. Através de sua poesia o regime truculento descobriu seu grande inimigo, aquele que mais se opunha a ele: a lucidez e a doçura do poeta.


O TEMPO DE DEUS
Ana Trajano


Eu sei que existe o meu
e o teu tempo, Senhor,
e quão diferentes são um do outro!

O meu é o tempo dos ponteiros
que caminham apressados
no círculo das coisas finitas.

O teu é o tempo sem pressa alguma,
pois reconhece-se eternidade.

No meu, para tudo tenho pressa
e exijo de Ti soluções imediatas.
Esqueço como são doces as frutas
que, em Ti, amadurecem nos galhos,
e amargas as retiradas prematuramente
para amadurecer pelos homens.

O tempo é só um filme em 3D, Senhor,
Ao qual está presa a minha imagem.

O passado é uma fita reprisada,
onde atuo atada pela saudade.
O presente é um flash ao vivo. Nele,
sou a repórter, e o arbítrio minha notícia.
E o futuro....ah, o futuro, Senhor, é apenas
o trailer de um roteiro imaginário
nesse mundo de ilusão....





Tua face.
Ana Trajano

D(EU)S

Eis o teu retrato,
Ó Eterno:
De todos os EUS
Sois composto
E a tua face é a de cada homem,
De tudo o que criastes.

Minhas digitais não são iguais
As do meu irmão,
Pois único és Tu,
Individualizado em cada ser,
E diversa tua obra,
Ó artesão de mundos, coisas e seres,
Para que, como esteta, te realizes.

Como negar a Ti, se em tudo que vejo
Lá está tua assinatura,
Inconfundível, inimitável, monossilábica?
"EU"
Sim, EU dos Eus!
Tu, DEUS.

Ninguém nega a Ti,
Sem antes negar a si mesmo




AH, ESSA LUTA!
Ana Trajano

Minha queda de braço
é comigo mesma,

com esse gêmeo de placenta única
que tem o meu nome, a minha cara,
mas não sou eu.
Eu sei que não é.

O espelho me diz todos os dias,
quando para ele abaixo os olhos,
como baixamos para a consciência.
Ou será ele a consciência e este também é o meu nome?

Se é, ainda não me convenci disso,
tão diferente somos.
Eu amo este mundo, real, palpável
e ele o outro mundo,
aquele erguido na invisibilidade,
onde os olhos não enxergam
e, diz ele, nem a terra há de comer-nos.

Eu sou correspondente de guerra,
em jardins minados,
onde até as rosas são suspeitas;
ele é mediador da paz,

daquela paz quase utópica,
das asas dos pombos brancos.

Todos os dias, assim como fez Pedro,
eu nego a Deus, estúpida e covardemente,
e todos os dias, assim como fez Maria,
ele o reafirma, ajoelhado diante dos seus anjos.

Eu sou aventureira,
amazona de desembestados corcéis;
ele é pescador de sonhos,
num riacho de glíter prateado, às margens do qual
passa o dia jogando o anzol
e ninando os sentidos.....




QUANDO MINHA ALDEIA NÃO ERA GLOBAL
Ana Trajano

Quando eu era criança,
a vida, sem pressa, acontecia-me
com mais realidade e menos ficção,
com mais verdade e menos ilusão.

As cores saltavam aos meus olhos,
vivas, frescas- cores da vida, da natureza-
sem aparelhos para transmiti-las editadas,
frias e distantes, tão inacessíveis à minha alma.

Quando eu era criança,

a vida acontecia-me ao vivo,

em todos os ângulos, direções e tomadas.
Hoje, ela é gravada,
e eu a assisto em câmara lenta,
no sofá da sala,
digerindo- como pipoca sem sal-
a vilã da novela das nove,
ou a notícia, lá do avesso do mundo,
da morte de um ídolo por overdose.
(Meu vizinho, porém, suicidou-se,
e só uma semana depois eu tomei conhecimento.)

Quando eu era criança,
e alguém da minha aldeia morria,
todos ficavam sabendo,
pois os sinos, chorando, anunciavam,
e, por horas a fio, nós chorávamos
com o anúncio deles.
Meu povoado era minha casa.
Hoje, minha aldeia é global
E minha casa também.
Eu conheço o que está distante, e
os sinos do meu povoado não tocam mais.



SILÊNCIO
Ana Trajano

Tudo é sol escaldante
e terra árida

quando tu, minha alma, silencias.

Calam-se as cigarras
no meu peito,
onde, triste, a garça vem aninhar-se
numa poça restante.

Oh, dependente tornei-me
do mel que me servias,
na seiva dos verbos doces
que em teu leito floresciam.

Não me faltes,
manancial divino!
Não suporto esse deserto
de poesia.

30/01/2015 



O PIÃO

Ana Trajano


O mundo é um pião solto
Nas mãos de um gênio hiperativo,
Cuja graça está em girar, girar, girar....

Parado, seria só um pensamento morto,
Uma possibilidade não concluída

E o gênio não mostraria sua genialidade
E o pião não apresentaria sua beleza





AMANHECER
Ana Trajano

Hoje não foi o dia 
que acordou-me;
eu o acordei.

-Levanta! - disse.
Ele espichou-se,
alongou todos os músculos
e perguntou:

-Por quê tão cedo?

-Porque és o primeiro
de um novo tempo e
não quero demorar-me,
respondi.

Ele sorriu, tomou-me
pela mão e fomos
abrir a cortina.

Lá fora, o sol saía
do seu banho de mar
e enxugava-se com sua
dança de luz no céu,
por trás de toalhas de
nuvens bem branquinhas...




SALVE, MARIA!
Ana Trajano

Tu, que em teu regaço,
Acolhes-me,
e, do teu néctar, me alimentas,
com inefável doçura,
És de Deus o sorriso maternal,
Misericordioso,  abraçando o mundo.

Contigo, a vida é um jardim,
e os dias  rosas que desabrocham
à luz do sol que é teu olhar.

Tu és a poesia de Deus,
Em uma  imagem de mulher,
que, em verbos, te espalhas
com as tuas ações de amor:
Dar, doar, perdoar, dividir...

Tu és o amor que, se praticado,
Levará ao Verbo,
Eternamente conjugado
no presente, por que sempre É,
O Eu Sou.



MÃE DE LUZ
Ana Trajano

Ó Lua, guia-me os passos,
Pelo Altíssimo que te sustenta,
Pois escura é a noite
E o caminho não enxergo  bem!

Ó Sol, resplandece em minha alma,
Pelo Altíssimo que te mantém,
E liberta ela estará
Das trevas dos tristes dias!

Eis que o mal
Já se confunde com o bem,
E os homens, como tolos,
Consomem a morte infantilmente.

Ó Doze Estrelas da tiara de Maria,
Brilhai sobre o discernimento
Das doze tribos de Israel,
Em todos os povos da terra.
Eis que sombrios estão os tempos
Para os filhos de Adão!

Ó Doce Mãe de Misericórdia,
Tu, que refulges mais
Que o sol, a lua e as estrelas,
Pois sois mãe e filha Daquele que é Luz,
Guia-nos à fonte inesgotável dela:
O Coração de Jesus!
  



GUERREIROS DA LUZ
Ana Trajano

Somos guerreiros da luz,
Nossa arma é a oração,
Nossa batalha é por Jesus,
Nosso exército é a Legião.

Tua Legião, ó Maria,
Que a Duff  inspirastes,
A lutar com alegria
Pelos filhos que criastes.

Nenhum mal há de nos atingir,
És escudo a proteger,
Se estamos para servir
E o teu estandarte erguer.

Somos guerreiros da luz,
Nossa arma é a oração,
Teu amor é o que conduz

Às horas de devoção.




PELOPONESO
Ana Trajano

Faz parte da minha natureza
Ser tão simples, pois nenhuma
Sofisticação em mim cabe,
Como não cabe num poema árcade.

De cal não se pintam os prados,
E chanel não veste as flores
Do Peloponeso.

Diz-me o vaqueiro em seu aboio
Que o orgulho é uma rainha louca,
A cujos desmandos sucumbem
Até os poetas.

Das montanhas ecoa
o balir das ovelhas;
Dos palácios o crocitar
Dos abutres.


EM LÍNGUAS MORTAS
Ana Trajano

A poesia cochichou-me:
"Em ti detestarei línguas mortas
e a erudição desmedida-
estas burcas que servem apenas
para esconder minha face.

E trancafiar-me em livros enigmáticos,
cujas chaves, só a meia dúzia de sábios
são dadas.

Em ti detestarei os currais,
e todas as cercas as derrubarei,
pois a palavra é um pássaro
que, em gaiolas, emudece
e canta apenas para quem o aprisionou."

-Gostas do gorjeio triste
dos pássaros engaiolados?
-Não, respondi.

-Então aceitas-me livre
nas florestas da tua alma?
-Sim!

E na minha mão
ela colocou seu anel.




EM GUARDANAPOS DE PAPEL
Ana Trajano

Minha poesia tem, para ti,
a cara de rabiscos ébrios,
fazendo um quatro em guardanapos
de papel

Se assim não fosse, porém, não seria
minha poesia,
pois rabiscos ébrios que fazem um quatro
em guardanapos de papel,
expressam apenas o equilíbrio que quero.

Vês como tudo é tão relativo?
O que é nu de caminhos e desejos
para uns,
para mim é como chegar ao Himalaia,
com apenas uma perna,
e aprender todos os âsanas com yoguis invisíveis.

Se soa minha poesia
como trombetas de anjos desentoados,
é porque nada mais aspiro

além de uma vaga no conservatório celestial.



INGÊNUA  IDADE
Ana Trajano

Oh ingênua idade
que acompanha-me
desde o útero da minha mãe
e faz menino meu coração,
numa aldeia de índios nus,
tementes a Nhanderuvuçu.

De ti se riem os civilizados,
os que desdenham da inocência
dos que entendem os  trovões

Que importa a ti, pergunto,
o julgamento do outro
que nada mais além da delével substância
que plasma a face alheia
segundo sua convicção?

Mantém-te, pois, na tua aldeia
de índios nus,
onde o tempo nada mais é

que a ingenuidade de Nhanderuvuçu.


Automatização

Ana Trajano

Entre robôs e complôs:
Ai de mim se o espírito 
da máquina possuir-me:
serei mais um sem rosto
na procissão dos autômatos

Por isso, tão certo
quanto o surgir do sol,
ordeno todos os dias
ao meu coração:

Cuidado! Não te automatizes!

Ainda que o mundo
queira-te máquina,
não desista de ser humano!





Saudade
AnaTrajano


Saudade é carta de amor
no bico do pombo-correio
que perdeu-se no caminho



Cre-Ser
Ana Trajano

Ser dói
Dói cres-SER
Assim com "s",
Tão estranho
É o sofrer.



FELIZ AGOSTO!
Ana Trajano
Que venhas "a gosto",
Pintar o oito,
Pois o sete apenas desenhei.

Que venha "a gosto",
O adubo que pedem
Os meus jardins,

Pois esperam a primavera
Meus sorrisos em botões.




QUANDO MINHA ALMA RECOLHE-SE
Ana Trajano

Quando minha alma recolhe-se,
a poesia falta-me
e, em sua ausência,
o sorriso murcha,
como que afetado por inanição.
As cigarras silenciam dentro de mim.
Sou floresta sem sons,
jardim sem rosa alguma.

Cadê minha voz?
Cadê meu canto?
Cadê meus perfumes
e meus desabrochares?

Passo a ser eu sem mim,
a existir sem nenhuma expressão.

A poesia é meu autoafeto,
minha carícia no mais íntimo de mim,
meu êxtase não físico,
transcendental.

Porém, é jardim e jardineira
minha alma,
e o momento de podar-se
ela conhece
para que, revigorada,
em poesia floresça...





SOU POETA SEM FUTURO
Ana Trajano

Há poetas com
e poetas sem futuro
Eu sou poeta sem futuro:
meus  versos fazem fronteira
apenas  com o presente,
com o instante contorcido de dor,
ou inebriado de alegria.

Não gosto de chás
e meu café é as 7,
coado no copo com um pano
bem  velhinho.

Sou poeta sem futuro
Meu casaco gasto só reconhece
como fios de ouro, os raios de sol,
refletidos  sobre ele,
na eternidade de cada amanhecer.

Sou poeta sem futuro
e descobri, lá onde o nada
com tudo faz fronteira,
que só os versos nascidos da humildade,
coroam a alma.
Pois todo ego tem como último trono,

os sete palmos de sua mortalidade.




ESPERANÇA
Ana Trajano
Por que te entristeces,
alma minha?

Toda tempestade precede
o arco-íris,
e o teu um dia se formará

Acaso com a FELICIDADE
não estabelecestes
tua aliança?

Prepara-te, pois, para os
banhos de imersão
nos prismas coloridos

E, quando da luz sentires
o perfume
direi para ti: "vês quanta beleza?
Foi tu que, com paciência,
conquistastes.

Entendeste que no último capítulo
de uma imprevisível história,
o amor sempre se regozijará:

VENCI!!!"
 


NUNCA DIGA NUNCA
Ana Trajano

Nunca diga nunca!
O dinamismo da vida
não comporta certezas.

Substitua-o por “dei uma pausa
entre sentimentos desnudos do
riso na divina comédia que sou eu”

Nunca diga nunca!
Poder e mistério guardam a mente
de quem escolhe teu papel
neste teatro que se reinventa
a cada amanhecer.

E “nunca” não habita seu tempo,
nem as páginas do seu dicionário,
nem o mundo das suas certezas...

Nunca é palavra estéril
que nada cria, além da

traição a si mesma.





A MORTE DE UMA FLOR EM TRÊS ATOS
Ana Trajano

Mulher:
-Oh, meu amado,
tão ingênua fui eu:
me desfiz em cuidados
com uma flor que morreu!

Homem:
-Rosas não ressuscitam
o perfume perdido
das pétalas mortas
num livro esquecido.

Mulher:
-Oh, meu amado,
que  prazer sinto eu,
eternizar a essência
do jardim que morreu!



CARRANCA
Ana Trajano



Hoje, olhando para a minha vida,
vi o quanto permiti que ela assumisse
aquele ar de carranca.
Talvez para proteger-me dos maus espíritos
que alimentam-se da seiva da felicidade alheia.
E quanto mais feios são eles, mais feia
precisa ser a carranca, colocada na proa
do barco para proteger seus navegantes.

Não é à toa que meu nome é Ana,
xará daquela que levou seu tempo a
esculpir carrancas, iguais as que cobrem
o velho Chico com sua cara de mistério,
de feiura que, transcendendo todas as feiuras,
chega lá aonde reside a mais pura beleza,
e transforma-se nela própria;
lá aonde, pelas mãos da arte, a vida
Foi esculpida com tal perfeição que ninguém mais
se alimentará de seu néctar.

E todos os fantasmas foram afastados
E ninguém mais assustará os meus dias.

Porém, agora decidi: vou emprestar à minha vida
aquele ar de palhaço que, no horto, numa manhã de domingo,
deixa curiosos os bichos e anima os inocentes.

E terei como alimento para os outros,
apenas a alegria e o perdão






COLMEIA
Ana Trajano

E de repente virei floresta,
mata atlântica bem cerrada.
De todos os bichos em mim soltos,
não sei qual bicho sou.

Sei apenas que era mansa
e estou selvagem,
arisca igual a minha gata
quando vê estranhos - e poucos
não são estranhos para mim.

Era doce e estou amarga
A máquina que moeu-me,
tinha fel em suas lâminas.

Esta não sou eu
Eu sei que não sou assim

Meus olhos eram calmos
e minha mente meditativa
Hoje equilibram-se em galhos
que balançam ao vento.

Esta não sou eu
Eu sei que não sou assim.

Buscar-me-ei nesta floresta,
nestes bichos que criei
para apenas defender-me.

O que quero?
Encontrar uma colmeia
e, na leveza do seu mel,
redescobrir minhas digitais humanas.



A-MANDO
Ana Trajano

Estou amando, disse eu,
sem desconfiar que  este “amar”
poderia significar estar a-mando
de forças contrárias a razão.

Porém, descobri, enfim,
que estamos a-mando
quando perdemos as rédeas
do coração, e o deixamos galopar
como um potro selvagem
num jardim de espinhos

E quanto mais descontrolado
ele galopa
mais feridos ficamos,
e sentimos falta do que perdemos:
pois razão e coração devem estar
juntos para que o amor seja

Quando estamos a-mando
somos apenas tomados
pelo autoritarismo que não é
próprio do amor.

O amor não pede, não manda,
não é escravo, não é senhor.
Simplesmente doa-se, como
uma rosa dá seu perfume,
como o sol dá sua luz,
pois tudo –tanto a rosa, como o
Sol - são apenas
reflexos do que ele é.

Por isso hoje disse ao meu coração:
“ame, mas tenha cuidado para não estar
a-mando!”





MÁGOA
Ana Trajano


Mágoa é manancial 
parado a calar fundo
e fazer do coração
um lago afunilado,
sem sangradouro,
sem ter para onde escoar,
a não ser para o subterrâneo
de si mesmo.

E a alma, que nele reside,
triste submerge à espera
de seu salva-vidas:
a luz que transcende
toda escuridão.

Foge, pois, alma minha,
de tão maldita fonte,
pois há profundezas
em que a luz não pode chegar!





Em nome do Pai...
Ana Trajano

Tu, que não cabendo
em forma nenhuma,
em todas as formas
te espalhas,

foi a mim que à
tua forma fizestes!

Bendito sejas
pela beleza que me
concedestes,
na trindade que em mim
pusestes!

Bendito sejas
por minha mente que projeta
e ordena: "Faça-se!"
e Tu, Pai, representas!

Bendito sejas
por meu corpo
que obedece -
e o filho é!

Bendito sejas
por meu coração
que pai e filho une,
e o Espírito guarda!

Que de amor sejam
meus projetos,
que, com amor, sejam feitos
e no amor estará minha
UNIDADE!

Bendito sejas
pela beleza
que me destes!

21/10/2013




FELICIDADE
Ana Trajano

Felicidade é como fruta madura,
colhida no pé numa manhã de sol:

Já vem pronta para lambuzar a alma
e produzir a farra dos sentidos

Se a sofisticamos, ela perde o sabor original,
igual a maçã caramelizada,
comprada no parque de diversão:
ruim até para morder.

Felicidade não é coisa;
é estado de espírito.

O carro zero, o apartamento de luxo...
são apenas brinquedos que nos alegram
e distraem, mas custam os olhos da cara,
e a felicidade não tem preço
porque você não tenho preço.

Se felicidade fosse mercadoria cara,
só os ricos seriam felizes.
Mas a felicidade é justa:
dá-se por igual a ricos e pobres.

Felicidade com código de barra
Tem prazo de validade.
Porém, a verdadeira felicidade
não tem data de vencimento

Pois sem fim determinado
É a lembrança de um sorriso;
ou do banho de bica tomado na infância;
ou dos “besourinhos” feitos por nossos bebês;
ou da última ceia de Natal com todos reunidos;
ou a felicidade de gritar “eu te amo”,
debaixo dos lençóis, numa noite de chuva....




DESERTOR
Ana Trajano

Indiferente à pólvora
que se espelha,
dorme minha alma,
cabeça repousada
nos seus sonhos de nuvens

-Acorda, digo-lhe,
ainda há beleza no sol que se põe,
e nas estrelas que brilham
à revelia da fumaça.

Como criança,
ela atende a meu pedido
e passa os olhos
ao redor do mundo

O que vê cansa-lhe
as pálpebras
e faz doer-lhe o coração

E volta a dormir minha alma,
cabeça repousada
nos seus sonhos de nuvens.

Só, então, descubro sua verdade:

é soldado desertor
em esconderijo de guerra.
Impotente, engana com o sono
sua fome de paz.

14/09/2013







DAS ALIANÇAS E DO ARCO-IRIS
Ana Trajano

As alianças rompidas
em suas esferas guardavam
o arco-iris de cores e sonhos
tão familiar
como a alegria dos pombos
que caminham nas praias
envoltos pela brisa
nas manhãs de verão

E pensam:

"Eis o paraíso!
"Eis o meu amor!"

A nuvem, porém,
o sol escondeu,
e o arco-iris cessou:
era feito de ilusão.

Só resistiu à tempestade
a lembrança das palavras,
mal profetizadas
pela ingenuidade sacerdotal

Tudo, enfim, tem seu tempo
E o do arco-iris é tão curto!...

04/01/2014 (14:36)






A VIDA É FEITA DE ESTAÇÕES
Ana Trajano

De mansinho chega a vida
e, de mãos beijadas,
me entrega o outono

-Toma!- sussurra ao meu ouvido-
despe-te agora do que já não
te cabe!
O que não te serve, entrega já
aos cemitérios ocultos no tempo,
onde repousa o lixo tóxico das
estações.

Tenho pressa, pois sou feita de fases.
Libertas em ti as folhas
que pedem para partir! – ordena.

Como as árvores,
entrego-me à leveza do soltar-se
nas mãos com luvas cinzas
do outono

E começo a desfolhar-me
de sonhos, pensamentos, atitudes...
Entre o canto das cigarras

e o trabalho das formigas.





O BANCO, A DÍVIDA E O COBRADOR
Ana Trajano

Salvem-me os anjos
E todas as potestades celestes!
Cansei de procurar ouro
neste oceano de lágrimas
que eu apenas faço transbordar
com as minhas.

O bom tesouro não está neste mundo -
descobri  isso -,
e nem condena os que o buscam
à escravidão monetária

Perdi a conta
de tantas contas
e, nas contas do rosário,
procuro um saldo qualquer

-Será que tenho algum, Senhor? –pergunto.
-Eu não sou banqueiro, filha?-
responde-me Deus.

E, surpresa,  me dou conta
que eu sou o banco,

a dívida e o cobrador





LÍRIOS

Ana Trajano

Vês, alma minha!
Há algo de temível
nas flores que desabrocham
nos jardins dos homens
de corações inquietos
e mentes perigosas.

Vês!
Há um peso sobre o mundo
a esmagar os inocentes,
de corações sensíveis.

Há os que não sabem o que é,
e os que sabem e calam-se,
temerosos de que os ouçam.

Pois há ideias que esmagam
crenças
e crenças que esmagam
ideias.
Há velórios de velhos paradigmas,
no panteão dos deuses
de verdades incontestáveis.

Vês, alma minha!
Contudo, há esperança,
nos lírios que brotam,
nos jardins desconstruídos
de caducos saberes.





CAVALO-MARINHO
Ana Trajano
 
Deixei de temer a morte,
desde que me descobri  eterna.

Temor eu tenho da vida.
Se não sabes, viver é um perigo,
e eu não sei viver perigosamente,
neste sanatório de mentes perigosas.

O mundo é um cenário de tensões,
produzindo um filme de horrores,
patrocinado por uma corporação,
sedenta de mim e de ti.

É proibido não ter dinheiro;
guarda sempre algum para o bandido!
Mas, cuidado: não pode ser pouco!
Pois pouco pode valer também a tua vida!

Roteiros hollywoodianos
não são para mim;
nem para figurante eu sirvo.

Sou apenas um cavalo-marinho,
trotando no asfalto,
sem saber para que lado
fica o oceano.

Luz! Câmera! AÇÃO!
-“Pode um dublê?” –pergunto.
-“Dublês não são para cavalos-marinhos”-
responde o mundo-
são apenas para mocinhos famosos
que não podem correr perigo.”





Canção para Sathya
Ana Trajano

Ensina-nos a ver na noite escura
os dias densos de perigos mortais,
pois é débil nosso lampião de azeite
e, gasto pelos séculos,
não nos serve mais.

Ensina-nos a acordar o sol-
Aquele que há em nós,
dormindo em eclipse -
e será novamente dia
em nosso coração...

Vinde a nós 
com tua verdade
e dissolve com teus olhos
esse tempo de ilusão!








FINA FLOR
       Ana Trajano

Eu tentei!...
Nas tuas mãos,
ó meu demiurgo
das paixões ébrias,
permiti-me plasmar!

Tatuei minhas digitais
para caber no teu universo,
cuja substância é a
infidelidade.

E como fui infiel a mim!...
Moldei-me à forma
dos devaneios do mundo,
segui o rebanho de autômatos
ao seu curral de ilusões...

Eu tentei!...Sabes que tentei,
ó meu demiurgo
das paixões ébrias!

Mas percebi que sou apenas
uma ovelha negra sem cara
na multidão,
 sem vocação para as potências
que fermentam os grandes
números.
Fina flor sem perfume
para a futilidade....

Perdoa-me, ó demiurgo!
Não sou para as tuas
paixões ébrias!...

Meu cabresto tomei
enquanto dormias:
vou devolvê-lo ao destino
das ovelhas sem curral!...




A canção da luz
Foto: Eduarda Trajano
Ana Trajano

Atentai, alma minha,
e refúgio não busques
nos palácios da morte!

Atentai!
À espreita dos teus passos
andam seus príncipes

e de mágicas estão cheias
suas cartolas.

Atentai!
Fazei do amor, teu caminhar!

E mesmo que se transforme
em brasas o ódio,
para que o amor caminhe
sobre elas,

aprendei com o sol
a canção da luz
e o perdão será bálsamo
para as tuas dores






ESTAÇÃO
Imagem: Google, sem referência quanto a autoria
Ana Trajano

Sem néctar hoje estou, abelhinhas,
e sem perfume para os beija-flores.
É outono e de musgo me cobri.

Quando vier a primavera,
nascerei "alegria-de-jardim"
e enfeitarei todos os meus canteiros.

Da jardineira amarela,
direi para ti: vem, meu rouxinol,
das palavras regadas
um adágio nasceu!

Vem, pois a tarde cai
e minhas pétalas sonolentas
música te pedem!

Cantarás para mim?




CARP-DIEM
Ana Trajano
Imagem: Sucursal Fotos de Pássaros

Por que não sou
como esse pássaro
que colhe o seu dia, 
em nada se detendo,
cantando com alegria?

Nem o passado,
nem o futuro,
a ele interessa:
só o instante maduro,
colhido sem pressa.

Por que não sou
como esse pássaro
que a nada se prende:
nem a árvore que o abriga,
nem ao fio que se estende

Só à sua cantiga
que alegria lhe rende?




SAUDADE
Ana Trajano

Se soubesses o que é saudade,
decerto aparecerias,
com a mesma brevidade
com que vinhas e fugias,
com a mesma instantaneidade
da polaroide que fazia
o teu rosto ser de neve
como a neve que caía.
Me darias um abraço,
certamente sorririas e, 
sob o teu embaraço, 
eu bem triste te diria:
"saudade dói como um parto,
dói como a dor que eu sentia,
no peito brotar o infarto
de tanta saudade que doía."
te daria mil abraços, 
depois te libertaria.





CRISE
Ana Trajano

Minha crise
é axiológica,
de consumos febris,
de sentidos sem rédeas,
de liberdades vis.

Minha crise
é iluminista, capitalista,
materialista, burguesa, neoliberal!!!

Minha crise é estética,
cética,
paradigmática!

É sem contexto,
sem pretexto!
É global!



SONHO
Ana Trajano

Mulher no Jardim, Claude Monet
Aonde foste, alma minha,
Enquanto tua casa dormia?

É dia já, e de luz fazes teu desjejum.
Nos arredores de tua morada
Ninguém para regar o  jardim...

Com retalhos de memória
Teces alheia tua colcha de saudade.

Mas lá aonde teu tear alcança,
O mundo é um sonho;
Cá onde estás não podes sonhar.

Anima-te, alma minha!
Vai regar o jardim que rodeia tua casa!
Pois quente está o verão
E tuas rosas não podem murchar!...





Cântico de um monge
Ana Trajano

De vós, ó mundo,
Fogem os sensatos,
Mas és mestre em sedução.

Felizes os que negam tua ilusão,
Pois libertos ficam de seus alçapões

De pedregulhos são seus caminhos
Mas desnudos tornam-se de toda aflição




A CIGARRA
Ana Trajano

Ouvi cantar a cigarra
em seu oráculo no bambuzal,
e rigoroso é o inverno
que seu canto anuncia.

Ouvi cantar a cigarra
em seu oráculo no bambuzal:
fecham os homens os ouvidos
à sua estridente melodia.

Ouvi cantar a cigarra
em seu oráculo no bambuzal:
sábias são as formigas
que entendem sua cantoria.

Ouvi cantar a cigarra
em seu oráculo no bambuzal:
sejam os homens como formigas
para o que seu canto anuncia.



TEMPO DE PAZ
Ana Trajano


Catedral de Reims, Anjo Risonho
Levanta-te, alma minha,
para dançar ao som das
harpas:
o tempo de paz chegou!

Crescem os lírios nos jardins dos homens
e, brancos, cobrem o chão para afagar
passos.
Dos lírios já não há mortos à espera,
nem corpos perfurados para esconder
com rosas.

Silenciaram os canhões.
As metralhadoras também silenciaram.
E, no mercado da morte,
Caíram as ações.

Vê, alma minha!
As estrelas anunciam um novo tempo,
de eterno Natal,
de um Deus nascendo eternamente
no coração dos homens,
do amanhecer ao por do sol

Sê para ele a manjedoura,
com a doçura da palha
E, com os bichos do presépio,
aprendei a ser humana,
coroando-se de humildade!...



Carente
Ana Trajano

Sentindo-me órfã
de uma mãe viva
que não é a minha.

A vida emprestou-me-a
na terra adotada
para concluir
meu parto inacabado.

E dei-me para a luz
sob o farol de suas mãos.

Mas mãe que é mãe
precisa dar-se ao sol,
mesmo que seus filhos
sintam-se na penumbra.



SE EU PUDESSE
ANA TRAJANO
Minha filha Duda, acordando de bom humor.

Ah, se eu pudesse!
Serias mais que a
ilusão da amizade 
virtual, ou do abraço 
postado na velocidade 
da luz:
Serias tu, apenas tu,
presente, real.

Se eu pudesse
serias sensível,
nesse instante, 
a todos os meus
sentidos:

Meu dúlcido olhar
de tênue entardecer,
a brandura quase anódina
do meu sorriso,
às minhas mãos afáveis
num carinho verdadeiro...
Às minhas palavras
entregarias teus ouvidos.

E num abraço, entrelaçados,

cairia em mergulho nos olhos teus:
pretos, castanhos, azuis...
Submergiria ao oceano
que é teu coração!

Mas só se eu pudesse!

Imagem: Google, sem referência quanto a autoria.



ÂNIMA
Ana Trajano

Por que te afliges,
D Graça Veiga, acácia em flor na Ilha Ibo.
alma minha?

Observai a acácia
do teu jardim de inverno

E verás quão absurda
é a finitude que temei:

Ontem era outono
e suas folhas cobriam
o chão

Desintegraram-se
para integrar-se,
compor uma ordem
a que tudo obedece

Assim também contigo será:
ao inverno sucederá
a primavera,
e à tua ignorância
a sabedoria se sobreporá

Por que te afliges,
alma minha?

Entrega-te ao olhar
de quem ninguém
fugirá.





A VIDA NÃO CONHECE A SI MESMA
ANA TRAJANO


Foto: Eduarda Trajano
Tão atraente é
o enredo da vida,
que conjuga-se no futuro
as folhas do devir.

O que sou para ti,
e o que és para mim,
neste instante,
é apenas semente
do que seremos um para
o outro no próximo.

Se uma hora tem
sessenta minutos,
sessenta possibilidades
existem em nós.

Neste enredo, pois,
Nem eu conheço a ti
Nem tu a mim

Pois a vida não conhece
a si mesma.





CURIANGO
 Ana Trajano
 
Triste é o canto
do curiango
à beira da estrada
como a alma
de um candango
chamando por sua
amada.

Curiango... Curiango...

Saudade dói
como açoite
nos dias tristes
tão longos....
Tomado por ela à noite
 canta aflito
 o curiango

Curiango... Curiango...

Sempre à margem
do caminho
como se esperando
estivesse
nas horas que passam
devagarinho
por alguém que não
aparece....





Imagem: Imotion
BORBOLETAS
ANA TRAJANO

Bailai, bailai borboletinha!
Na manhã de sol bailai:
de adeus é tua coreografia
nos sândalos em flor.

Bailai, bailai borboletinha! 
Na manhã de sol bailai:
já se abrem as frestas
na parede do tempo

E vem o príncipe
para quem dançai
em seu cavalo de vento.

Bailai, bailai borboletinha!
Na manhã de sol bailai:
mais breve que um suspiro
é o teu encantamento.


PONTE
Ana Trajano

Sufocadas pelas papoulas vermelhas,
fugiram as alamandas
amarelas,
e meu jardim viu murchar
sua autoestima.

Oh, alamandas, voltai!
Os vaga-lumes precisam
de vós!
Sois a ponte ao lilás
das buganvílias, 
que, em coroas de flores,
nas compridas hastes,
tocam o etéreo.

Como poderão, agora,
com suas pequenas asas
e sua tênue luz
beijar o céu?


O PREÇO
ANA TRAJANO
Imagem: escultura dos italianos
 Arnaldo Pomodoro e Giuseppe Maraniello

Perguntei a Jesus:
-Senhor, quanto custa
a iluminação?

Sorrindo, com o sangue a escorrer
da cabeça e descer pela face, 
Ele respondeu:

-Uma coroa de espinhos, filha!

Então, pensei:

-O mundo não perdoa quem
busca outro conhecimento
além do mundo.


Somos Um
(Poema para Deus)

Ana Trajano

Não podemos nos separar jamais
Essa verdade é divina, Senhor
Em cada uma das minhas células estás
E ínfima célula do teu organismo eu sou

Oh felicidade tão real, suprema
Quando, inesgotável, te descobri em mim
Eu, rio, transbordei com lágrimas amenas
Tu, oceano, abraçaste-me com os olhos, Swamiji

O fio d'água tímido e enfraquecido
Ao oceano agora se juntava
O caminho que havia percorrido
dava em vagas que na praia rebentavam

O riozinho inquieto e solitário
É paz, agora, no vai-e-vem das ondas
No som das águas como de um campanário
Chamando à fonte quando Tu sondas

Tempo
Ana Trajano


Imagem: Google
Para o bicho-Preguiça
parece que não há tempo
e tudo é tão devagar!...

Por que não é o tempo
um bicho- Preguiça
com preguiça de andar?



ESPELHO
Ana Trajano

Repousai, olhos meus,
repousai da violência
do mundo neste espelho
de paz, onde grácil a lua
deita-se e o vento vem 
nadar

Repousai, olhos meus,
repousai da violência
do mundo neste espelho
de paz, onde o prado
pinta de verde o meu
sonho e, nas folhagens
do bambu, eu sou a
borboleta no casulo
da esperança, mas tão
pouco voarei!....


Concepção

Ana Trajano

Eu te  mostro estrelas como quem
gostaria de ser o teu telescópio,
através de cujas lentes pudesses
ver galáxias longínquas escondidas
na amplidão de um Universo elástico.

Eu te mostro estrelas porque, não sei
se me compreendes, quando te vi
nascer me senti como este universo:
num big-bang de amor explodi em ti.

Eu te mostro estrelas porque quero
que entendas que o ato da concepção
assemelha-se a este big-bang: bilhões
de células ordenam-se caoticamente
para explodir em vida!


Quando te concebi apenas repeti o
que aconteceu com o Universo há
bilhões de anos. Entende: o útero
é um órgão sagrado. É ele que
acolhe essa função cósmica que
temos nós mulheres. Compreendes
Deus como uma gigantesca mulher,
com um útero também gigantesco,
capaz de gerar estrelas, constelações,
galáxias inteiras!...


Só quando te gerei pude entender o
poder que tenho: é o mesmo poder de
Deus! E como ele, que não se cansa de
conceber, também sinto o mesmo desejo
de ter quantos filhos for necessário, até
sentir se esgotar em mim essa
elasticidade para a criação!...


Natureza
Ana Trajano

“És pó e ao pó voltarás!”
eis o alento para os meus
dias fatigantes:

Voltar a ser pó
de estrelas
e maquiar a face
do universo!

Primeira pessoa
        Ana Trajano


Eu estou em D(eu)s
Eu estou no c(éu)
Eu estou no at(eu)
Eu estou no v(éu)


De ilusão


Que separa de Deus
Que tira do céu
Que faz ser ateu
Que oferece a ação!


Prece
Ana Trajano

Vem, irmão Sol!
O mar te espera
com seus braços d´agua

para levantar-te
como hóstia
no seu rito matinal!

Vem alimentar
as criaturas,
pão divino,
com teu corpo de ouro e luz!


Florbela
Ana Trajano


Hoje amanheci
tão Florbela Espanca
que pude ouvir
meu pai chamar:

"Vem, minha flor da pele,
eu canto pra ti aquela
canção de ninar!"

Oh, pai, se teu colo
fosse perto
ou supersônico voasse,
tuas rosas não sentiriam
falta d´água
até o fim do verão!